Texto de Vivaldo de Sousa
Inaugurada em 8 de dezembro de 1891, a avenida Paulista, sede de muitas empresas e endereço de um dos principais museus latino-americanos, completa hoje 130 anos, como um dos lugares mais inseguros de São Paulo. Cartão postal da cidade, por onde passam diariamente centenas de milhares de pessoas, essa avenida registrou em setembro 756 furtos e roubos de celulares, segundo pesquisa da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap).
Na média, um celular foi furtado a cada 29 minutos. Teve gente que perdeu o celular quando atravessava a faixa de pedestre. Teve pessoas que perderam o celular durante um passeio próximo ao MASP. E outros que perderam o celular quando estavam se encaminhando para entrar no Uber, logo após conferir a placa do carro e o nome do motorista. Nesses três casos uma coincidência: o ladrão estava de bicicleta e carregava nas contas uma mochila de aplicativo de entrega de comida.
Nesse último caso, registrado no final da tarde de sexta-feira (03), o ladrão tinha nas costas uma mochila do Ifood, que, assim como as bolsas dos demais aplicativos, é usada pelos bandidos como uma forma de identificar e se aproximar das potenciais vítimas sem chamar a atenção. Não sei como funciona a entrega dessas mochilas, mas acredito que a entrega, para proteger os verdadeiros trabalhadores e demais pessoas, deveria ser mediante identificação e um número, que permitisse localizar o dono rapidamente.
O celular, em especial os smartphones, fazem parte do dia a dia da vida da maioria das pessoas nas grandes cidades, seja no Brasil ou no exterior. E o roubo ou furto usando bicicleta e mochila de aplicativo de entrega de comida não é exclusividade do bairro dos Jardins, onde fica a avenida Paulista. E a preocupação de quem atua na hotelaria com a segurança dos clientes é tão grande que alguns hotéis colocaram nos elevadores um aviso para ficar atentos à aproximação de entregadores de comida por aplicativo.
Se essa situação já faz parte do “novo normal” para muitas pessoas, ainda deveria ser uma preocupação para as autoridades municipais e estaduais, seja em São Paulo ou qualquer outra cidade, e para as chamadas empresas de tecnologia, tão eficientes em lançar anualmente modelos mais modernos e mais caros. É preciso que as empresas de telefonia, fabricantes de celulares e responsáveis por aplicativos, principalmente os financeiros, sejam cada vez mais ágeis para evitar que o crime compense.
Enquanto os bancos e as fintechs, assim como algumas operadoras de telefonia, conseguem bloquear rapidamente o acesso do bandido aos dados pessoas do legítimo dono do celular, a Apple, responsável pelo desenvolvimento e fabricação do Iphone, demora cerca de 14 dias, mais de 330, para devolver ao legítimo dono o controle do Icloud (sistema de arquivos nas nuvens), impondo a quem acabou de ter o celular roubando mais um desgaste do ponto de vista emocional e psicológico.
Situações como as descritas nesse texto não podem ser vistas como normal. Nem pelas autoridades da área de segurança pública, que precisam desenvolver estratégias inovadoras e mais inteligentes para combater o crime, nem pelas empresas que fabricam celulares, alegando que cabe ao dono do aparelho zelar pela sua segurança. Ou será que eles acreditam que as mais de 6.000 pessoas que tiveram um celular furtado em São Paulo em setembro foram vítimas apenas por descuido?


