Bolsonaro criticou de maneira tênue os atos ora em curso e, no limite, não atuou no sentido de barrar os protestos
Por André César – SP
Uma situação anteriormente projetada por observadores da cena política nacional ganhou materialidade logo após a conclusão do processo eleitoral, domingo último. Apoiadores mais extremados do presidente Jair Bolsonaro (PL) saíram às ruas para contestar o pleito. Rodovias foram bloqueadas e, nas portas dos quartéis, somam-se pedidos de “intervenção militar”. Teremos um terceiro turno em andamento?
A rigor, o processo sucessório foi limpo e transparente. Muitos aliados de Bolsonaro, entre deputados estaduais, distritais e federais, senadores e governadores foram eleitos. Questionar os resultados, em tese, seria jogar por terra vitórias incontestáveis por todo o Brasil – por exemplo, o novo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), superou por larga margem o petista Fernando Haddad. Não cabe aqui qualquer tipo de dúvida.
A ação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) ganha destaque negativo em todo o processo. A instituição vem atuando como uma espécie de linha auxiliar do bolsonarismo mais radical, com comandantes fazendo vista grossa aos atos mais violentos. O direito constitucional de ir e vir não está sendo respeitado e a balbúrdia, mais que tolerada, parece ser incentivada pelos quadros da PRF.
Para piorar, nas redes sociais, os grupos de apoio ao atual mandatário alimentam o caos. Hoje, quinta-feira, 3 de novembro, a situação é de absoluta incerteza. Quais os limites da atuação dos extremistas?
Bolsonaro criticou de maneira tênue os atos ora em curso e, no limite, não atuou no sentido de barrar os protestos. A Justiça, de seu lado, impõe medidas severas, mas não consegue reverter a situação em definitivo. O resultado é um só – o país segue acompanhando os eventos, sem poder de reação.
Trumpismo tropical, dizem alguns. Golpismo claro, afirmam outros. O fato é que, na noite de quarta-feira, mais de cem bloqueios eram registrados em rodovias de todo o país. Desabastecimento de alimentos e combustível, dificuldade de acesso a hospitais, caos. Um final de governo para ser esquecido – ou não.
Nossa ainda imatura democracia segue em xeque. Nesse momento, serenidade e inteligência são os ativos mais necessários. O futuro da nação está em jogo. Não é hora para brincadeira ou irresponsabilidade. Chega de divisão.














