O estudo representa no campo da ecologia da restauração, ao quantificar de forma precisa o impacto do processo de endozoocoria
Por Lucas George Wendt – RS
Sementes ingeridas por antas (Tapirus terrestris) podem germinar com taxas mais altas e em menos tempo do que aquelas que simplesmente caem no solo sob as árvores-mãe.
Embora a dispersão de sementes por antas já fosse conhecida desde os anos 1980, o novo estudo buscou aprofundar a análise da viabilidade germinativa e da velocidade de brotação das sementes submetidas à digestão.
A constatação é de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade do Vale do Taquari (Univates) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), publicado na revista científica Acta Amazonica em 27 de junho de 2025.
O trabalho ressalta a importância ecológica da anta — o maior mamífero terrestre da América do Sul — como agente natural de regeneração florestal, especialmente em contextos de degradação ambiental.
O estudo representa no campo da ecologia da restauração, ao quantificar de forma precisa o impacto do processo de endozoocoria, a dispersão de sementes por meio da ingestão por animais, sobre o tempo e a taxa de germinação.
Além de confirmar que as sementes sobrevivem à passagem pelo intestino das antas, os pesquisadores demonstraram que esse processo natural pode aumentar a eficiência germinativa de várias espécies nativas.
A anta é um mamífero de hábitos solitários e noturnos, amplamente distribuído na América do Sul, mas ameaçado em diversas regiões devido à perda de habitat, caça e atropelamentos.
Por se alimentar principalmente de frutos, folhas e brotos, ela é importante como frugívoro e dispersor de sementes. Cada indivíduo pode consumir centenas de frutos por dia e defecar em locais distantes das árvores de origem, o que ajuda a quebrar o padrão de agregação de plântulas e a promover a diversidade vegetal.
“A anta é o último grande frugívoro terrestre da América Latina. Seu desaparecimento representaria a perda de um elo fundamental para o ciclo de regeneração de muitos ecossistemas tropicais”, afirma o biólogo Mateus Marques Pires, um dos coautores do artigo. Pires integra o Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento da Univates e atua na interseção entre ecologia e conservação.
A coleta de dados foi realizada entre janeiro de 2021 e dezembro de 2022, em uma área de preservação permanente na zona de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado, no estado do Mato Grosso. A bióloga Lucirene Pinto, doutoranda da Univates, visitou periodicamente 140 latrinas utilizadas por antas — locais que esses animais usam repetidamente como “banheiros naturais”.
Em 88% das amostras fecais coletadas havia sementes intactas.
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores alertam que a atuação das antas como restauradoras depende da conservação de seus habitats e da conectividade das paisagens. Em muitas regiões do Brasil, a fragmentação florestal e as barreiras impostas por rodovias e monoculturas reduzem o deslocamento desses animais, limitando sua capacidade de dispersar sementes.
Outro desafio está na escassez de dados sobre o comportamento das antas em diferentes biomas e épocas do ano. A ideia é expandir o estudo para outras regiões e avaliar se o mesmo padrão se repete em escalas maiores.






















