O recesso poderá criar condições para que governo e oposição sentem às mesas em busca de um freio de arrumação
Por André César – DF
Em meio ao grande imbróglio criado a partir do chamado tarifaço anunciado pelo republicano Donald Trump a produtos brasileiros, o governo Lula da Silva (PT) e a oposição mais alinhada ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estudam os próximos movimentos. Enquanto isso, o Congresso Nacional entra na última semana de trabalhos antes do recesso de meio de ano. Agenda cheia.
Comecemos falando dos impactos do tarifaço sobre a política brasileira. A primeira impressão é a de que o Planalto ganhou sobrevida com o anúncio norte-americano, após sucessivos reveses nos últimos tempos.
No limite, Trump colocou um presente no colo do petista, que tenta calibrar o discurso e agir de maneira cautelosa, ao lado do vice, Geraldo Alckmin (PSB).
O fato é que a medida da Casa Branca afetará de maneira muito dura setores importantes da economia brasileira, com perdas consideráveis. Dois exemplos rápidos – cargas de pescado que seriam enviadas aos Estados Unidos estão presas em portos brasileiros, trazendo prejuízos severos aos exportadores; quase 100 toneladas de mel aguardam embarque no Ceará, sem perspectiva imediata de solução. Isso sem falar em áreas centrais da economia, de larga escala e fortes geradoras de empregos.
Aqui fica a pergunta: as elites econômicas do Brasil, Faria Lima e Fiesp incluídas, se unirão em torno do governo federal para encaminhar soluções efetivas para o caso? O Planalto agradece.
Do lado da oposição, o quadro é diferente. Após apoiarem publicamente as medidas de Trump, governadores como Tarcísio de Freitas (Republicanos), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (União Brasil) – todos pré-candidatos à sucessão presidencial – começaram a mudar de rota.
De fato, as reações da opinião pública foram negativas a esse posicionamento. São Paulo, por sinal, será o estado mais afetado pelo tarifaço. Luz amarela no caminho de Tarcísio.
Um registro importante a se fazer diz respeito a Bolsonaro e família. Há uma espécie de tentativa de se afastar do ex-presidente, uma figura cada vez mais tóxica e pivô da decisão de Trump. Mesmo setores da grande imprensa já demonstram desconforto com a situação, como atestaram contundentes editoriais publicados em jornais no final de semana. Algo se move.
Quanto ao recesso parlamentar, o objetivo dos líderes partidários é realizar uma espécie de esforço concentrado nos próximos dias. A pauta é extensa e complexa com, entre outros, a questão da isenção do IR e o IOF. Resta saber se o tarifaço não contaminará politicamente o já conturbado cenário. A conferir.
Enfim, o recesso poderá criar condições para que governo e oposição sentem às mesas em busca de um freio de arrumação. Do contrário, a crise entrará firme no segundo semestre. O tempo corre.
PS: o instituto Quaest realiza pesquisa para aferir os reais impactos do tarifaço sobre a população. O Planalto, com a popularidade em queda, aguarda com ansiedade os números do levantamento.




















