Quando o estresse é intenso, contínuo e sem acolhimento, ele se torna tóxico. Cuidar de uma criança é uma tarefa que exige presença emocional
Por Clarice Binda – DF
Setembro é o mês em que o Brasil promove a campanha Setembro Amarelo para falar sobre saúde mental e prevenção ao suicídio. A campanha, cada vez mais presente nas ruas e nas redes sociais, convida à reflexão coletiva sobre a importância de acolher quem sofre e quebrar o silêncio em torno desse tema.
Mas pouco se fala sobre um aspecto essencial para o futuro da saúde mental: os impactos do estresse tóxico na primeira infância, fase que vai de 0 a 6 anos de idade.
O estresse faz parte da vida. Pequenas frustrações ou mudanças de rotina, quando acompanhadas de afeto e suporte, ajudam a criança a se desenvolver de forma saudável.
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Setembro é o mês em que o Brasil promove a campanha Setembro Amarelo para falar sobre saúde mental e prevenção ao suicídio. A campanha, cada vez mais presente nas ruas e nas redes sociais, convida à reflexão coletiva sobre a importância de acolher quem sofre e quebrar o silêncio em torno desse tema.
Mas pouco se fala sobre um aspecto essencial para o futuro da saúde mental: os impactos do estresse tóxico na primeira infância, fase que vai de 0 a 6 anos de idade.
O estresse faz parte da vida. Pequenas frustrações ou mudanças de rotina, quando acompanhadas de afeto e suporte, ajudam a criança a se desenvolver de forma saudável. Mas quando o estresse é intenso, contínuo e sem acolhimento, ele se torna tóxico.
Nesse cenário, o corpo da criança passa a liberar constantemente hormônios como cortisol e adrenalina, afetando o desenvolvimento cerebral.
As consequências vão além do presente: comprometem memória, aprendizagem, autoestima, vínculos afetivos e a capacidade de lidar com emoções. Em alguns casos, esse histórico aumenta a vulnerabilidade e a ocorrência de transtornos mentais na vida adulta, incluindo depressão e risco de suicídio.
Mas há um elo invisível (ou invisibilizado) que promove uma mudança nesse cenário: a saúde dos cuidadores. Cuidar de uma criança é uma tarefa que exige presença emocional. Pais, mães e responsáveis funcionam como uma espécie de “escudo protetor” contra os efeitos nocivos do estresse.
Quando esses adultos estão emocionalmente disponíveis, conseguem transformar situações adversas em oportunidades de fortalecimento.
Mas e quando o cuidador está sobrecarregado?
A falta de moradia adequada, a insegurança alimentar, o desemprego, a violência doméstica ou a ausência de uma rede de apoio prejudicam a saúde mental dos adultos — e, consequentemente, a das crianças que deles dependem. É por isso que especialistas em saúde alertam que a saúde mental das crianças começa na saúde mental de seus cuidadores.
Assim, se a campanha de prevenção ao suicídio busca salvar vidas, é preciso lembrar que esse cuidado deve começar cedo, ainda na infância. E prevenir esse estresse tóxico da infância é também uma forma de prevenção ao adoecimento mental no futuro.
No entanto, essa não é apenas uma responsabilidade das famílias, mas de toda a sociedade, seja por dever de solidariedade, seja por sofrer também as consequências desse adoecimento.
Dessa forma, são necessárias políticas públicas consistentes que garantam ambientes seguros e acolhedores para as crianças, tais como programas de parentalidade positiva, que orientam famílias no fortalecimento de vínculos afetivos;
licença parental adequada, e não apenas materna; acesso a serviços de saúde mental, especialmente para cuidadores em situação de vulnerabilidade; educação infantil de qualidade, que funcione como rede de apoio e estímulo ao desenvolvimento saudável;
espaços de lazer e esportivos acessíveis para crianças e adultos, enfrentamento das desigualdades sociais, reduzindo fatores de risco como pobreza, racismo e violência.
São essas ações que podem interromper o ciclo de estresse tóxico, oferecendo às famílias o suporte necessário para que cuidem melhor de suas crianças.
O Setembro Amarelo é um convite para refletirmos que proteger a saúde mental não é somente acolher quem sofre agora, mas também investir em quem está começando a viver.
Cuidar de quem cuida é proteger a infância. E proteger a infância é garantir que as próximas gerações cresçam com resiliência, autoestima e vínculos fortes. Afinal, a prevenção ao adoecimento mental começa no colo, no berço e no abraço.


