A captura de Maduro reforça discursos já conhecidos, consolida bases existentes, mas não altera o equilíbrio eleitoral no Brasil
Por Erich Decat – DF head do time de Análise Política
Nas últimas horas, as principais lideranças políticas brasileiras se manifestaram sobre a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos. Como era esperado, o episódio rapidamente foi incorporado ao debate político doméstico.
Parte das análises iniciais sugeriu a existência de um possível “perde e ganha” eleitoral entre o presidente Lula e lideranças da centro-direita e da extrema direita. Com as informações disponíveis até aqui, contudo, a leitura mais consistente é a de que se trata de um jogo de soma zero, sem efeitos relevantes de conversão eleitoral.
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Ao adotar o discurso da defesa da soberania venezuelana, Lula da Silva recorre a uma retórica já utilizada recentemente, como no episódio do tarifaço imposto pelos EUA ao Brasil. Naquele caso, a estratégia contribuiu, em alguma medida, para a melhora da avaliação do governo. No entanto, o contexto venezuelano é distinto.
Aqui, a defesa é percebida majoritariamente como ideológica, leitura que o próprio PT acaba reforçando ao classificar a captura de Maduro como um ato inaceitável.
Esse enquadramento se soma a um histórico que limita o alcance eleitoral da narrativa. A reeleição de Maduro, em julho de 2024, ocorreu sob fortes críticas internacionais quanto à transparência do processo.
Embora o governo brasileiro não tenha reconhecido formalmente o resultado, Lula da Silva também evitou caracterizá-lo como fraudulento. A proximidade entre os dois líderes ficou evidente em declarações públicas do próprio presidente brasileiro, que relatou conversas recentes com Maduro sobre a conjuntura geopolítica e a necessidade de evitar conflitos na região.
Lula da Silva em café da manhã com jornalistas brasileiros realizado no último dia 18 de dezembro: “Conversei quase 40 minutos com o presidente Maduro. Defendi diálogo. Não queremos guerra no nosso continente”.
Do ponto de vista eleitoral, essa posição tende a reverberar apenas entre eleitores já alinhados ao campo da esquerda, especialmente a militância petista. Não há sinais de que o episódio amplie esse apoio para além da base consolidada.
No campo oposto, o movimento é simétrico. Declarações de lideranças da centro direita e da extrema direita celebrando o enfraquecimento do regime venezuelano dialogam quase exclusivamente com seus respectivos públicos. O discurso anticomunista e de condenação à ditadura venezuelana reforça identidades já estabelecidas, mas dificilmente atrai novos eleitores.
Além disso, o desfecho político da Venezuela segue altamente incerto. Não há clareza sobre os próximos passos, sobre uma eventual transição ou sobre o arranjo institucional que pode emergir. Nesse cenário, os posicionamentos no Brasil funcionam mais como sinalizações ideológicas do que como propostas capazes de alterar preferências eleitorais.
Entre esses polos, permanece o eleitorado de centro: menos ideológico, menos mobilizado por narrativas externas e mais sensível a temas domésticos como economia, renda e serviços públicos. É justamente essa distância em relação às bolhas políticas que torna o episódio venezuelano irrelevante do ponto de vista eleitoral agregado.
Em síntese, a captura de Maduro reforça discursos já conhecidos, consolida bases existentes, mas não altera o equilíbrio eleitoral. Por isso, do ponto de vista político-eleitoral, trata-se de um evento essencialmente neutro.
(Erich Decat é jornalista e head do time de análise política da Warren Investimentos)


