O recado que vem das ruas, do setor produtivo e da sociedade que sustenta o Estado é cada vez mais evidente: o país está cansado de promessas
Por Ademar Batista Pereira – SP
O Brasil entra em 2026 com a sensação recorrente de que uma eleição pode, sozinha, resolver problemas que se acumulam há décadas. Não pode. E insistir nessa crença é parte do que nos impede de avançar.
Vivemos um tempo de radicalismo que vai além da política. É humano. A conversa foi substituída pelo confronto, a divergência virou ameaça e o debate público passou a girar em torno de pessoas, não de problemas reais. Nesse ambiente, os grandes nós do país seguem fora da pauta.
A eleição importa. Muito. Mas ela é janela, não solução.
O primeiro nó é o custo e a fragmentação do Estado brasileiro. Mantemos um modelo caro, redundante e pouco eficiente. São mais de 5 mil municípios tratados como entes federados plenos, mesmo quando a maioria não consegue sustentar serviços básicos.
Cada um com câmara de vereadores, estruturas administrativas, cargos e secretarias que existem mais para acomodar interesses políticos do que para entregar resultados.
O segundo nó é a política do toma-lá-dá-cá. Emendas parlamentares se tornaram moeda de troca permanente. Recursos públicos são pulverizados em obras e ações de baixo impacto, escolhidas por conveniência eleitoral. Em vez de fortalecer políticas de Estado, reforça-se o curto prazo e o fisiologismo.
O terceiro nó é o custo do sistema político. Um Congresso com estruturas duplicadas, assembleias legislativas caras, câmaras municipais em todos os cantos do país e um sistema partidário excessivamente fragmentado. Fundos partidário e eleitoral consomem bilhões de reais a cada ciclo, financiando partidos que muitas vezes não têm base social real, apenas donos.
Outro nó relevante está no Judiciário. Um dos mais caros do mundo em proporção ao PIB, altamente segmentado, lento e desigual. A multiplicação de justiças especializadas, a morosidade processual e os privilégios corporativos produzem insegurança jurídica, afastam investimentos e ampliam a sensação de injustiça para o cidadão comum.
Há ainda um Estado que não aprende. Erramos, repetimos, mudamos os nomes e seguimos. Planejamento virou peça de campanha, não ferramenta de gestão. Vinculações constitucionais automáticas engessam o orçamento e garantem crescimento contínuo de estruturas, independentemente de eficiência ou resultado.
Por fim, há o nó emocional: um país cansado, dividido e permanentemente tensionado decide sob pressão. Nesse ambiente, propostas sérias perdem espaço para slogans fáceis. O debate empobrece — e o futuro também.
Nada disso será resolvido apenas com a eleição de 2026. Mas tudo isso precisa estar claro antes dela.
O recado que vem das ruas, do setor produtivo e da sociedade que sustenta o Estado é cada vez mais evidente: o país está cansado de promessas. O discurso fácil perdeu valor. A paciência com planos genéricos se esgotou.
Candidatos que insistirem em narrativas ideológicas, slogans vazios ou na negação dos problemas estruturais tendem a falar sozinhos. Em um ambiente de cansaço e pragmatismo, terão mais espaço aqueles capazes de demonstrar respeito ao setor produtivo, compromisso com resultados e disposição real para enfrentar os custos e distorções do Estado.
Não se trata de direita ou esquerda, mas de maturidade. Governar o Brasil exige menos retórica e mais capacidade de entregar. A eleição abre a janela. A credibilidade de quem se apresenta como solução dependerá menos do que promete e mais do que já foi capaz de fazer.
*Ademar Batista Pereira é Presidente do Instituto Destino Brasil.


