Portos, aeroportos e fronteiras demandam instalações adequadas, equipamentos atualizados, sistemas confiáveis e equipes
Por Janus Pablo – SP
A assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, depois de mais de duas décadas de negociações, foi celebrada como um marco capaz de ampliar significativamente a inserção do Brasil no comércio internacional.
O tratado tem potencial para integrar um mercado de cerca de 720 milhões de consumidores e movimentar trilhões de dólares em bens e serviços, o que amplia oportunidades, mas também eleva o nível de exigência sobre os sistemas de controle sanitário dos países envolvidos.
A promessa é conhecida: mais acesso a mercados, facilitação do trânsito de mercadorias e serviços e impactos positivos de longo prazo para a economia.
Mas o próprio processo de ratificação, ainda sujeito a disputas políticas, trâmites parlamentares e questionamentos jurídicos, deixa claro que o acordo não se encerra na assinatura. Ele começa ali e terá uma longa jornada a percorrer.
Transformar acesso em permanência será o verdadeiro teste. Para o Brasil, isso significa lidar com exigências sanitárias e fitossanitárias rigorosas, especialmente em um mercado como o europeu, onde a confiança institucional pesa tanto quanto preço ou volume.
Cada novo fluxo comercial traz consigo a necessidade de comprovar, de forma contínua, rastreabilidade, controle e capacidade de resposta. Nesse contexto, a defesa agropecuária ocupa papel essencial e estratégico dentro da política comercial.
É nesse ponto que a atuação dos auditores fiscais federais agropecuários se torna decisiva. São eles que garantem, na prática, que os compromissos assumidos em mesas de negociação se sustentem no dia a dia das exportações.
A presença de Affas como adidos agrícolas, inclusive, é parte desse processo, ao permitir interlocução técnica permanente com autoridades estrangeiras, negociação de protocolos, antecipação de riscos e resolução de entraves antes que eles se transformem em embargos ou suspensões de mercado.
No plano interno, o acordo também expõe uma exigência objetiva: o país precisa ter um sistema de defesa agropecuária capaz de acompanhar o aumento de fluxo e o nível de cobrança que acompanha a ampliação de mercados.
Portos, aeroportos e fronteiras demandam instalações adequadas, equipamentos atualizados, sistemas confiáveis e equipes suficientes para dar conta da fiscalização, da certificação e da resposta a eventuais não conformidades.
Capacidade do Estado brasileiro
Do campo a mesa sempre há atividades que demandam a participação dos auditores fiscais federais agropecuários. Fragilidades estruturais neste processo podem impactar contratos, cadeias produtivas e a imagem do Brasil como fornecedor seguro.
Por isso, o papel de um auditor fiscal federal agropecuário vai além da fiscalização rotineira. Esses profissionais são, na prática, um importante elo responsável por preservar e manter abertos os mercados conquistados.
Esse cenário torna inevitável o debate sobre orçamento. Estimativas oficiais indicam impacto econômico bilionário para o Brasil ao longo da próxima década com a entrada do acordo em vigor, o que torna ainda mais evidente a necessidade de um sistema de defesa agropecuária capaz de sustentar esses fluxos no longo prazo.
O contingenciamento de recursos compromete diretamente a capacidade do Estado brasileiro de cumprir os compromissos assumidos no plano internacional.
Não se trata de uma pauta corporativa, mas de uma condição básica para que o acordo funcione na prática. Manter mercados abertos custa menos do que tentar reconquistá-los após uma suspensão.
Previsibilidade orçamentária é o que permite planejar, modernizar estruturas e garantir equipes à altura das exigências.
O acordo Mercosul–União Europeia abre uma oportunidade relevante para o Brasil, mas seu sucesso não será medido apenas por números anunciados ou pela redução de tarifas.
Ele será avaliado na capacidade do país de demonstrar segurança sanitária, previsibilidade institucional e credibilidade. Sem uma defesa agropecuária estruturada e protegida de instabilidades orçamentárias, a ampliação de mercados pode se tornar um ponto de fragilidade.
Por outro lado, com uma ampliação bem estruturada, o Brasil sustenta, no mundo real, os avanços que o acordo promete entregar.
(Janus Pablo é presidente do Anffa Sindical, entidade nacional que representa os auditores fiscais federais agropecuários)
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