Trabalhadores de países pobres vêm sendo atraídos por falsas promessas. Eles são usados nas frentes de combate na Ucrânia
Por Misto Brasil – DF
“Na madrugada, nos confirmaram outros dois mortos, então são quinze”, diz à DW Percy Salinas, enquanto faz um café.
Foram dias agitados para ele e para outros dois advogados, que denunciaram a existência de uma máfia que engana cidadãos peruanos oferecendo empregos na Rússia como mecânicos ou eletricistas.
A farsa logo se revela um plano para enviar homens ao front de batalha na guerra contra a Ucrânia.
Os quinze mencionados por Salinas são peruanos que, após serem enganados, morreram na guerra. Há outros oito feridos, acrescenta o profissional. “A empresa que organiza tudo está na Colômbia, e as convocações são feitas pelas redes sociais”, explica.
“Num primeiro momento, pedem vigilantes, motoristas, eletricistas e mecânicos para trabalhar na Rússia. Quando chegam lá, retiram os documentos e os obrigam a assinar um contrato, que é a adesão às forças russas. Se não o fizerem, são agredidos e ameaçados de morte”, relata.
Os três advogados defendem dezenas de famílias que exigem do governo peruano intervenção para conseguir que seus parentes retornem o quanto antes ao país.
O Ministério das Relações Exteriores do país informou que 18 pessoas que chegaram à embaixada em Moscou foram acolhidas e repatriadas, mas os advogados dizem que, do outro lado do mundo, ao menos 600 homens permanecem à espera de soluções.
O fenômeno não ocorre apenas no Peru. Há casos relatados na Colômbia, em Cuba, na Bolívia e no Equador, entre outros países da América Latina.
No Brasil, são diversos os casos relatados na imprensa de cidadãos que foram à Rússia com a perspectiva de trabalho e acabaram no front.
Índia, Nepal — que chegou a proibir viagens a trabalho à Rússia —, Bangladesh, Iraque e África do Sul engrossam a lista de Estados que denunciaram que seus cidadãos acabaram sendo recrutados com falsas promessas.
O presidente do Quênia, William Ruto, afirmou que seu governo estava preocupado com a quantidade de jovens recrutados ilegalmente para lutar na guerra russa.
Em julho de 2024, durante uma visita a Moscou, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, exigiu da Rússia que dispensasse os indianos que haviam sido enganados para combater.
“É mais barato contratar um latino-americano do que um norte-americano ou um europeu”, explica à DW Elizabeth Dickinson, vice-diretora para a América Latina do International Crisis Group.
Além disso, pelo menos no caso dos colombianos, pesa muito o fato de o país ter uma experiência longa e ativa de guerra civil”.
Para ela, os latino-americanos se tornaram atraentes pelo desejo de mobilidade social.
“Uma oferta de 20 mil dólares é atraente. Por isso, há pessoas que assumem esses riscos e decidem ir, sem conhecer a realidade”, complementa Salinas.















