As fraturas da direita brasileira

Jair Bolsonaro manifestação Avenida Paulista Misto Brasil
Bolsonaro é recebido por aoiadores na manifestação da Paulista/Arquivo/Reprodução vídeo
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O bolsonarismo poderá descobrir que sua maior dificuldade não será enfrentar Lula da Silva, mas sobreviver às disputas internas

Por Victor Missiato – SP

As denúncias envolvendo a proximidade entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e alvo de investigações por supostas práticas relacionadas à corrupção, fraudes financeiras e articulações com empresários e políticos envolvidos em desvios de investimentos, passaram a ameaçar a pré-candidatura do parlamentar para as eleições presidenciais de 2026.

Entre as suspeitas que cercam o caso, aparecem também tentativas de corromper o Banco Central (BC) para facilitar fusões bancárias capazes de ocultar irregularidades anteriores.

Diante desse cenário, Flávio Bolsonaro, considerado pelo bolsonarismo o principal nome para disputar a sucessão presidencial, enfrenta uma das maiores crises políticas desde o início de sua projeção nacional.

A partir de uma forte repercussão social, Flávio Bolsonaro adotou uma postura de enfrentamento público semelhante à estratégia utilizada pelo bolsonarismo em outras crises políticas.

Entretanto, o avanço das investigações e a divulgação de novos detalhes sobre sua relação com Vorcaro — inclusive após o banqueiro deixar a prisão com tornozeleira eletrônica no fim de 2025 — ampliaram a pressão sobre sua pré-candidatura.

O caso já provoca divisões dentro da direita. Setores que antes apoiavam a consolidação do nome de Flávio Bolsonaro passaram a questionar sua viabilidade eleitoral, enquanto lideranças conservadoras enxergam na crise a oportunidade de fortalecer projetos alternativos para 2026.

As pesquisas mais recentes apontam uma queda de cerca de cinco a seis pontos nas intenções de voto do senador em comparação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição. O cenário aumenta as dúvidas sobre a capacidade de Flávio Bolsonaro chegar fortalecido à disputa presidencial.

O próprio Partido Liberal (PL) afirma que aguardará os próximos levantamentos eleitorais antes de decidir se manterá a estratégia atual ou buscará novos caminhos para a sucessão presidencial.

Fraturas já se manifestam

Enquanto isso, nomes ligados ao eleitorado de centro-direita e direita intensificam articulações políticas para ocupar o espaço deixado pelo desgaste da candidatura de Flávio Bolsonaro.

Os próximos desdobramentos do caso e a evolução das pesquisas devem influenciar diretamente a reorganização das forças conservadoras nas próximas semanas.

Caso o senador perca capital político suficiente para deixar de representar uma ameaça consistente a Lula da Silva em um eventual segundo turno, a direita poderá cair na armadilha de pulverizar votos e perder parte significativa do eleitorado de centro, que pode migrar para o atual presidente sem grandes resistências.

Ao se aproximar do teto dos 50%, uma vitória em primeiro turno, antes considerada improvável, começa a entrar no horizonte do campo governista. Nesse contexto, setores da direita tentam conter as fraturas que já se manifestam em disputas públicas entre intelectuais, parlamentares e lideranças partidárias.

O rearranjo interno desse campo político tornou-se ainda mais complexo diante da multiplicação de pré-candidaturas, como a do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Nas próximas pesquisas, o nome de Michelle Bolsonaro também deve aparecer como alternativa competitiva dentro do bolsonarismo.

A tendência é que a palavra final sobre os rumos dessa crise continue nas mãos de Jair Bolsonaro, que, até o momento, mantém a defesa pública da candidatura do filho.

A crise ultrapassa a simples definição de um candidato para 2026. O que está em disputa é a própria capacidade da direita brasileira de permanecer unificada após anos de hegemonia política construída em torno da figura de Jair Bolsonaro.

Caso essas fissuras se aprofundem, o bolsonarismo poderá descobrir que sua maior dificuldade não será enfrentar Lula da Silva nas urnas, mas sobreviver às disputas internas que surgem quando um movimento político deixa de ter um inimigo externo como principal elemento de coesão.

(Victor Missiato é analista político e professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie (CPM), unidade Tamboré)

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