A lógica chinesa foi simples e brutalmente eficiente, baseada em comprar tecnologia russa, absorver conhecimento industrial
Por Allan Gallo – SP
Durante décadas, a relação entre China e Rússia foi vista como uma parceria em que Moscou fornecia tecnologia militar e Pequim entrava com escala econômica. A Rússia era a potência estratégica, e a China, a aprendiz industrial.
No entanto, a visita do presidente Vladimir Putin a Pequim deixou claro que essa relação mudou e que talvez este seja um dos movimentos geopolíticos mais importantes do século XXI.
Nos anos 1990 e 2000, a China comprou enormes quantidades de armamentos russos que incluíam caças Su-27, submarinos, sistemas S-300 e até mesmo motores aeronáuticos.
Esse movimento foi interpretado por analistas como dependência estrutural chinesa, mas na verdade Pequim nunca quis depender da Rússia permanentemente. Queria aprender com ela.
A lógica chinesa foi simples e brutalmente eficiente, baseada em comprar tecnologia russa, absorver conhecimento industrial e transformá-lo em capacidade nacional. O caça J-11, derivado do Su-27, tornou-se símbolo desse processo, que também se repetiu nos sistemas antiaéreos inspirados nos S-300 russos.
Isso passou a gerar crescente desconforto em Moscou.
Durante anos, autoridades russas acusaram Pequim de copiar tecnologias militares por meio de espionagem e engenharia reversa, mas o incômodo real era mais profundo, porque, na tentativa de salvar sua indústria de defesa após o colapso soviético, a Rússia acabou ajudando a fortalecer justamente o país que hoje ameaça superá-la industrial e tecnologicamente.
Agora os efeitos aparecem com clareza.
A China reduz rapidamente sua dependência tecnológica da Rússia, inclusive em áreas historicamente sensíveis, como motores aeronáuticos. Ao mesmo tempo, a guerra da Ucrânia e as sanções ocidentais enfraqueceram a indústria russa e aumentaram sua dependência da capacidade manufatureira chinesa.
A inversão é histórica. Pela primeira vez em décadas, Moscou precisa mais da China do que Pequim precisa da Rússia.
Isso não significa ruptura, pois a China ainda vê valor estratégico em uma Rússia funcional para desafiar os Estados Unidos e pressionar a ordem atlântica.
A recepção cuidadosamente encenada de Putin em Pequim mostrou que essa parceria continua estrategicamente valiosa para os dois lados. No entanto, a relação deixou de ser equilibrada.
A Rússia continua sendo uma potência militar, mas a China está se tornando uma potência industrial capaz de transformar escala econômica em influência tecnológica, militar e geopolítica.
O verdadeiro erro do Ocidente, Brasil incluído, talvez seja continuar olhando essa parceria como uma aliança entre iguais. Ela já não é.
(Allan Gallo é professor de Economia e Direito na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) e pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica)











