Nos últimos 15 anos, três candidatos ligado ao esporte disputaram cargos eletivos no Distrito Federal, mas apenas venceu a eleição
Por Felipe Farias e Luis Felipe Batista – DF
Nos últimos 15 anos três ex-atletas, em cinco oportunidades, concorreram a cargos políticos no Distrito Federal, sendo que em somente uma dessas vezes um ex-atleta conseguiu ser eleito. Dentro dessas cinco tentativas, tiveram duas de Leila do vôlei, duas de Rebeca Gusmão e uma de Nayeri Albuquerque.
Em 2018, Leila concorreu pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) a um cargo no Senado Federal. Ela que, ingressou na política em 2015 como Secretária do Esporte, foi eleita senadora três anos depois, com 17,76% dos votos válidos.
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Posteriormente em 2022 a ex-atleta de vôlei se candidatou a governadora do DF pelo Partido Democrata Trabalhista (PDT), mas recebeu apenas 4,81% dos votos. Hoje Leila continua no cargo de senadora, e já anunciou sua pré candidatura à reeleição.
Ex-atleta de futebol feminino, Nayeri Albuquerque foi candidata a deputada distrital pelo PSB em 2022. Campeã do Candangão feminino em 2008, recebeu 1.372 votos, insuficientes para ocupar uma das 24 cadeiras da Câmara Legislativa do DF.
Hoje ela é presidente do time feminino do Minas Brasília Futebol Feminino, clube que fundou ao lado de sua irmã gêmea em 2012.
Rebeca Gusmão, que foi candidata a deputada distrital pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em 2010, chegou a ter a candidatura impugnada pelo Ministério Público Eleitoral (MPE).
O ministério argumentava que a ex-nadadora não poderia se candidatar por ter sido banida do esporte em 2008 pelo uso de doping.
Na análise do Ministério Público, a impugnação tinha como base a Lei da Ficha Limpa, uma vez que a punição foi decidida, no entender do MP, por meio de um colegiado de Justiça.
Um dos artigos da lei diz que são inelegíveis “os que forem excluídos do exercício da profissão, por decisão sancionatória do órgão profissional competente, em decorrência de infração ético-profissional, pelo prazo de 8 anos, salvo se o ato houver sido anulado ou suspenso pelo Poder Judiciário”.
No entanto, a Justiça entendeu que a Lei da Ficha Limpa não era aplicável a uma questão esportiva.
Rebeca pode concorrer normalmente, mas não obteve o total de votos para ser eleita. Em 2022 a nadadora, medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de 2007, se candidatou pelo União.Com apenas 1378 votos, ela não foi eleita.
Outras trajetórias de outras ex-atletas
A trajetória desses três ex-atletas não é um fenômeno isolado no Brasil.
Ela reflete um padrão amplamente estudado pela ciência política, que é a migração de celebridades esportivas para o campo eleitoral como estratégia de recrutamento dos partidos, a exemplo disso temos, Romário o ex-jogador de futebol que é filiado ao PL no Rio de Janeiro, Bebeto também ex-atleta de futebol é filiado ao PP também no Rio de Janeiro.
No artigo “O futebol como meio campo para a política: o jogo além das quatro linhas“, publicado na Revista de Sociologia e Política, os pesquisadores Jefferson Ferreira do Nascimento e Maria do Socorro Sousa Braga analisam como atletas e celebridades agregam ao menos dois importantes recursos estratégicos para os partidos, que são a ampla popularidade e incentivos financeiros.
Os autores argumentam que o capital político funciona como um tipo de capital simbólico, que depende do reconhecimento dos pares e se assenta em uma crença socialmente compartilhada sobre sua validade, ou seja, a fama construída nas quadras, piscinas ou campos pode ser convertida, ao menos em parte, em votos.
É exatamente esse mecanismo de transferência de prestígio que explica por que Leila do Vôlei chegou ao Senado como a candidata mais votada do DF em 2018, carregando consigo décadas de reconhecimento público construído no esporte de alto rendimento.
No entanto, o mesmo estudo alerta que a visibilidade é condição necessária, mas não suficiente para o sucesso eleitoral. A exposição, apesar de necessária, não é fator suficiente para se converter em capital político, e contextos eleitorais e características pessoais contam para o sucesso e insucesso.
Os casos de Nayeri Albuquerque e Rebeca Gusmão ilustram com precisão essa limitação que ambas possuíam trajetórias esportivas reconhecidas, mas tiveram votações inexpressivas.

Capital esportivo tem vantagem
Os pesquisadores identificam que, para que o capital esportivo se converta em capital político de fato, é necessário que o atleta consiga sustentar um vínculo por meio do pertencimento a uma determinada identidade coletiva, uma coesão que, no caso de modalidades de menor apelo de massa como a natação ou o futebol feminino no contexto brasiliense, tende a ser mais difícil de mobilizar nas votações.
Para o cientista político Melillo Dinis, a história esportiva oferece uma vantagem real, mas limitada, no momento em que um ex-atleta decide disputar uma eleição. “O esporte produz algo extremamente valioso para qualquer candidato: reconhecimento instantâneo.
Enquanto um político iniciante precisa gastar tempo e recursos para que o eleitor saiba quem ele é. Um ex-jogador já entra em campo conhecido”, avalia.
Segundo ele, a fama construída nas arenas esportivas costuma carregar atributos altamente valorizados pelo eleitorado brasileiro, como disciplina, superação e meritocracia.
No entanto, Dinis é enfático ao separar popularidade de capital político efetivo.
“O ex-atleta normalmente começa com uma vantagem de conhecimento, mas também enfrenta uma cobrança maior. Quando um político tradicional fala uma bobagem, ela passa quase despercebida. Quando um ex-jogador fala algo inconsistente, o erro ganha repercussão”, afirma.
O cientista político aponta ainda uma particularidade do eleitorado brasiliense que torna esse fenômeno ainda mais visível no Distrito Federal:
“O eleitor brasiliense costuma apresentar um perfil diferente da média nacional”.
“É uma população com elevada presença de servidores públicos, profissionais liberais e universitários que acompanham mais intensamente os debates políticos nacionais. O voto de celebridade existe, mas costuma ser menos automático do que em outras regiões.”
Para Melillo, a chave que diferencia os casos bem-sucedidos dos frustrados está na capacidade de construir uma segunda identidade pública.
“A experiência brasileira mostra que os casos mais bem-sucedidos não são aqueles em que o candidato se apresenta apenas como ex-jogador. São aqueles que conseguem construir uma segunda identidade pública: gestor, líder comunitário, empresário, ativista social ou parlamentar atuante”, explica.




















