Da renovação progressista ao avanço conservador na CLDF

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Plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal/Arquivo/Divulgação
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Após mais de 20 anos de regime militar, a democracia voltou ao Brasil. Confira a mudança dos componentes em nove eleições

Por Átila, Malheiro, Maria Isabel Gameiro, Letícia Corazza, Pedro Salgado e Rafael Lins – DF

Desde a primeira eleição para a Câmara Legislativa do Distrito Federal, em 1990, o perfil dos deputados distritais passou por uma transformação silenciosa, mas significativa.

Os parlamentares que inauguraram a Casa após a redemocratização representavam uma geração marcada pela novidade da participação política local e pela construção das instituições democráticas da capital.

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Ao longo das últimas três décadas, porém, a média de idade dos eleitos aumentou gradualmente, refletindo a consolidação de carreiras políticas mais duradouras e a redução do espaço para lideranças jovens, assim como para novas lideranças.

A mudança acompanha o amadurecimento do próprio sistema político do DF, onde experiência e capital eleitoral passaram a pesar mais do que a renovação.

Esse envelhecimento da CLDF ocorreu paralelamente a outra tendência: o fortalecimento de posições conservadoras entre os representantes eleitos.

Se nos anos 1990 a Câmara Legislativa reunia uma composição mais heterogênea do ponto de vista ideológico, as eleições mais recentes consolidaram o crescimento de bancadas ligadas à segurança pública, ao segmento religioso e a pautas de costumes mais conservadores.

O resultado é um Legislativo que, além de mais velha, tornou-se também mais alinhada a agendas de direita, com perfil mais conservador, reproduzindo mudanças observadas no eleitorado brasiliense e no cenário político nacional desde a redemocratização.

Começo progressista pós ditadura

Nas três primeiras eleições para deputado distrital realizadas após a redemocratização — 1990, 1994 e 1998 — o Distrito Federal vivenciou a consolidação de suas instituições democráticas e a ampliação da participação política da sociedade.

A eleição de 1990 foi especialmente simbólica, pois escolheu os primeiros 24 deputados distritais da história do DF, tornando efetiva a autonomia política garantida pela Constituição de 1988.

Entre os eleitos estavam lideranças ligadas a partidos de esquerda e centro-esquerda, como os petistas Geraldo Magela, Pedro Celso e Wasny de Roure, e Agnelo Queiroz (PCdoB) que representavam pautas associadas à democratização, aos direitos sociais e à participação popular.

Nas eleições de 1994 e 1998, observou-se o fortalecimento dessas correntes progressistas, especialmente com o crescimento do PT no Distrito Federal. Em 1994, a vitória de Cristovam Buarque para o Governo do Distrito Federal refletiu a força de propostas voltadas à educação, inclusão social e ampliação da cidadania, influenciando também a composição da Câmara Legislativa.

Esse cenário contrastava com o conservadorismo predominante durante a ditadura militar (1964–1985), período marcado pela centralização do poder, restrições às liberdades políticas e baixa participação popular nas decisões públicas.

Além disso, muitos dos deputados distritais eleitos nas primeiras legislaturas distritais pertenciam a uma geração mais jovem do que a elite política que atuou durante o regime militar, como Agnelo Queiroz, eleito em 1990 aos 32 anos, e Geraldo Magela, eleito aos 35 anos.

A presença desses novos atores políticos simbolizava a renovação democrática do DF e a ascensão de valores progressistas em oposição à tradição autoritária e conservadora herdada do período ditatorial.

Comissão Fundiária CLDF Legislativo Misto Brasil
Comissão de Assuntos Fundiários da Câmara Legislativa/Carolina Curi/Agência CLDF

Ascensão da esquerda

Entre as eleições de 2002 e 2014, a Câmara Legislativa do Distrito Federal testemunhou a consolidação do Partido dos Trabalhadores (PT) como uma das principais forças políticas locais.

Beneficiado pela popularidade dos governos de Lula da Silva e pela tradição de forte organização sindical e dos movimentos sociais em Brasília, o PT ampliou sua presença parlamentar e passou a ocupar posição de destaque entre as bancadas distritais.

Em 2002, nomes como Arlete Sampaio e Paulo Tadeu simbolizavam o avanço de pautas ligadas à educação, aos direitos sociais e à democratização do Estado.

Ao longo das eleições de 2006, 2010 e 2014, o partido manteve uma das maiores representações na Câmara Legislativa, chegando a eleger cinco distritais em 2010 e permanecendo como a maior bancada em 2014, ainda que com ligeira redução para quatro cadeiras.

Paralelamente, partidos de centro-esquerda e esquerda, como PDT, PSB, PPS e PCdoB, também conquistaram espaço, fortalecendo um campo progressista que defendia maior participação popular, políticas redistributivas e ampliação dos direitos civis.

Esse crescimento progressista foi acompanhado por mudanças graduais no perfil dos eleitos. A participação feminina permaneceu limitada, mas algumas lideranças se destacaram nesse período, como Arlete Sampaio (PT), Jaqueline Roriz (PSDB), Eliana Pedrosa (União) e Celina Leão (PP).

Apesar desses avanços, as mulheres continuaram sendo minoria na política distrital, refletindo uma realidade nacional na qual a representação feminina entre deputados estaduais e distritais oscilou entre aproximadamente 11% e 13% entre 2002 e 2014.

Quanto à idade dos parlamentares, as legislaturas desse período foram marcadas por uma predominância de deputados na faixa dos 40 aos 55 anos, acompanhando uma tendência observada em todo o país.

Embora surgissem lideranças mais jovens, especialmente vinculadas a partidos progressistas e movimentos sociais, a média etária manteve-se em torno da meia-idade.

Isso revela um contraste interessante com os primeiros anos da Câmara Legislativa, na década de 1990, quando a renovação democrática trouxe um número maior de políticos jovens para a cena institucional.

Ainda assim, a ascensão do PT e de outros partidos progressistas contribuiu para renovar não apenas agendas políticas, mas também os perfis sociais representados na Casa, ampliando a presença de mulheres, sindicalistas, professores e lideranças comunitárias em um espaço historicamente dominado por grupos políticos mais tradicionais e conservadores.

Volta do conservadorismo

Entre as eleições de 2018 e 2022, a política distrital passou por uma transformação significativa.

Depois de quase duas décadas em que o PT e outros partidos de centro-esquerda mantiveram forte presença na Câmara Legislativa, observou-se o avanço de partidos associados ao campo conservador e à direita.

A eleição de 2018 ocorreu no contexto da ascensão nacional do bolsonarismo, que fortaleceu legendas como PSL, Republicanos, Patriota e DEM.

Embora a esquerda tenha preservado lideranças importantes, a composição da CLDF tornou-se mais equilibrada entre os dois campos ideológicos.

Em 2022, essa tendência se consolidou: o PL tornou-se a maior bancada da Câmara Legislativa, com quatro deputados distritais eleitos, enquanto PT e MDB elegeram três representantes cada. Ainda assim, partidos progressistas continuaram relevantes, com destaque para o PSol, que elegeu os dois deputados mais votados do campo da esquerda, entre eles Fábio Félix, o mais votado na eleição de 2022.

De acordo com a cientista política Beatriz Rodrigues, o aumento do conservadorismo não é um fenômeno exclusivo do Brasil:

“É possível afirmar o crescimento do conservadorismo não só no DF e no Brasil, mas em todo o mundo. Debates como segurança pública, a valorização da família dita como tradicional e o aumento da influência religiosa, principalmente a evangélica, no âmbito político são mais acatados pela nova juventude eleitoral”, diz a especialista do Instituto de Ciências Políticas.

O retorno do conservadorismo também pode ser observado no perfil das pautas defendidas pelos eleitos. Se entre 1994 e 2014 predominavam debates ligados à ampliação de políticas sociais, educação pública e participação popular — temas tradicionalmente associados ao PT e seus aliados —, a partir de 2018 ganharam força agendas relacionadas à segurança pública, valores religiosos, empreendedorismo e redução da intervenção estatal.

Esse movimento não eliminou a influência progressista, mas encerrou um longo período em que a esquerda possuía maior protagonismo na política distrital. A própria composição partidária de 2022 demonstra esse equilíbrio: PL, Republicanos, PP, União Brasil e MDB somaram mais cadeiras do que os partidos de esquerda e centro-esquerda.

Outro aspecto importante foi a mudança geracional. Nas décadas de 1990 e 2000, a Câmara Legislativa possuía vários deputados eleitos na faixa dos 30 anos. Em 2022, embora nomes jovens como Fábio Félix (37 anos) e Max Maciel (34 anos na eleição) tenham se destacado, a média etária da Casa aumentou em relação aos primeiros anos da CLDF.

A presença de parlamentares experientes, muitos acima dos 50 anos, como Chico Vigilante (PT) e Wellington Luiz (MDB), contribuíram para elevar essa média.

O envelhecimento gradual do perfil dos eleitos acompanha uma tendência nacional observada nos legislativos estaduais e reflete a valorização de trajetórias políticas mais consolidadas pelos eleitores e também pelo envelhecimento de uma sociedade como um todo.

A participação feminina apresentou avanços modestos. Em 2022, apenas quatro mulheres conquistaram cadeiras na CLDF — entre elas Paula Belmonte (PSDB), Jaqueline Silva (MDB), Doutora Jane (Republicanos) e Dayse Amarilio (PSB).

Embora superior aos números observados nas primeiras legislaturas da década de 1990, a representação feminina ainda permanece abaixo da proporção das mulheres na população do Distrito Federal.

(Da Agência de Notícias do UniCEUB, coordenação do professor Vivaldo de Souza)

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