Tarifas, urnas e a fabricação permanente do inimigo

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Donald Trump é o atual presidente dos Estados Unidos da América/Arquivo/Divulgação
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A decisão norte-americana alcançará milhares de produtos, embora as exceções reduzam seu impacto nas exportações

Por Jean Paul Prates – RN

O Brasil reagiu sem romper as negociações, enquanto Trump voltou a transformar comércio exterior e desconfiança eleitoral em instrumentos de mobilização política

A imposição de novas tarifas de 25% sobre produtos brasileiros produziu, além dos prejuízos econômicos, uma curiosa disputa narrativa no Brasil. Para alguns, o governo teria começado com bravatas e recuado menos de dois dias depois, pressionado por empresários.

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Os fatos mostram uma sequência bem mais prosaica e responsável: reação política firme, preservação dos instrumentos jurídicos, negociação diplomática e avaliação econômica dos danos.

A decisão norte-americana alcançará milhares de produtos, embora as exceções reduzam seu impacto para aproximadamente 18% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, cerca de US$ 7 bilhões anuais.

O governo brasileiro anunciou que acionará os mecanismos da Lei da Reciprocidade e recorrerá à Organização Mundial do Comércio. O vice-presidente Geraldo Alckmin também confirmou a preparação de apoio aos setores atingidos. Nenhuma dessas providências foi retirada.

A mudança ocorreu no vocabulário. O ministro Dario Durigan afirmou que o governo avaliaria “mecanismos de reciprocidade”, evitando tratar a resposta como “retaliação”.

Isso não representa capitulação. Reciprocidade é um instituto comercial e jurídico, aplicado de forma calibrada; retaliação sugere vingança automática, que pode prejudicar consumidores, empresas e cadeias produtivas do próprio país. Um ministro da Fazenda tem obrigação de fazer essa distinção, e o fez.

A reação inicial brasileira também não surgiu do nada. Marco Rubio acusou Lula de agir por ego e afirmou que o governo brasileiro não negociara de boa-fé, embora as conversas tenham envolvido dezenas de reuniões ao longo de meses.

Mauro Vieira respondeu que Rubio fizera um ataque rude e arrogante ao chefe de Estado de um país amigo, reiterando simultaneamente a disposição brasileira para negociar. Houve firmeza diplomática, não beligerância.

Também é equivocado tratar o episódio como consequência exclusiva de alguma provocação brasileira. Depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a rodada anterior de tarifas globais, Trump passou a reconstruir sua ofensiva utilizando a Seção 301 da legislação comercial.

Trump e as contradições

O Brasil foi o primeiro alvo da nova fórmula, mas Washington já sinalizou que outros grandes parceiros poderão ser atingidos. Em 2025, a voracidade tarifária chegou ao ponto de incluir as ilhas Heard e McDonald, territórios antárticos australianos sem habitantes humanos. Até os pinguins entraram, involuntariamente, na guerra comercial⁠.

A política está presente dos dois lados, como seria inevitável em ano eleitoral. Lula e seus adversários falarão aos respectivos públicos, e o calendário brasileiro entra justamente na fase das convenções partidárias e da oficialização das candidaturas.

Não haverá “esfriamento da política”. Haverá política em Brasília e, sobretudo, nos estados e municípios, onde as eleições efetivamente acontecem.

A parte mais grave do episódio é que Trump voltou a questionar a confiabilidade das eleições norte-americanas e acusou a China de interferência em 2020. Os documentos apresentados não demonstraram alteração de votos.

A avaliação anterior da própria inteligência dos Estados Unidos concluiu que nenhum ator estrangeiro modificou registros, cédulas, totalizações ou resultados. Alguns documentos divulgados afirmam, inclusive, que seria difícil manipular os sistemas em escala suficiente para alterar uma eleição. A contradição foi detalhada pela imprensa internacional⁠.

Esse factoide surge às vésperas das eleições parlamentares, quando os republicanos defendem maiorias estreitas, a aprovação de Trump permanece próxima das mínimas de seu segundo mandato e apenas um quarto dos norte-americanos considera que a guerra contra o Irã valeu seus custos.

Segundo pesquisa Reuters/Ipsos, somente 23% acreditavam que os Estados Unidos haviam saído fortalecidos do conflito⁠.

O Brasil deve continuar negociando, proteger empresas e empregos, recorrer às instituições multilaterais e responder proporcionalmente quando necessário. Isso se chama governar.

O risco mais profundo está na normalização de um método que transforma tarifas, guerras e suspeitas eleitorais em emergências sucessivas, sempre acompanhadas da fabricação conveniente de um novo inimigo.

(Jean Paul Prates foi presidente da Petrobras e senador pelo Rio Grande do Norte)

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