As tarifas passaram a servir simultaneamente para negociar déficits comerciais, pressionar aliados, punir adversários geopolíticos
Por Jean Paul Prates – RN
Quando Donald Trump anunciou tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, grande parte do debate nacional foi conduzida como se o Brasil fosse o alvo exclusivo de uma ofensiva inédita dos Estados Unidos. A repercussão política interna acabou obscurecendo um aspecto muito mais relevante: o Brasil não foi exceção.
Ao contrário, passou a integrar uma estratégia muito mais ampla, na qual tarifas comerciais deixaram de ser instrumentos de correção de desequilíbrios econômicos para se transformarem em ferramentas permanentes de pressão política, diplomática e geoestratégica.
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Esse movimento representa uma mudança importante na lógica do comércio internacional. Durante décadas, sobretudo após a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC), consolidou-se a expectativa de que disputas comerciais seriam conduzidas dentro de regras relativamente previsíveis, com mecanismos multilaterais de solução de controvérsias.
A política comercial americana sob Trump rompe deliberadamente com essa tradição.
As tarifas passaram a servir simultaneamente para negociar déficits comerciais, pressionar aliados, punir adversários geopolíticos, incentivar a relocalização industrial, interferir em políticas domésticas de outros países e, em alguns casos, responder diretamente a disputas políticas internas americanas.
Sob essa ótica, o caso brasileiro deixa de ser uma anomalia para tornar-se parte de um fenômeno muito maior.
A China continua sendo o exemplo mais evidente. Desde o primeiro mandato de Trump, a disputa comercial evoluiu para uma verdadeira competição estratégica entre as duas maiores economias do planeta.
As tarifas acumuladas sobre produtos chineses chegaram a superar, em determinados segmentos, a marca simbólica de 100%, somando-se às sobretaxas impostas em diferentes momentos e às medidas relacionadas ao combate ao tráfico de fentanil.
Nesse caso, há uma lógica geopolítica relativamente clara: conter a ascensão tecnológica e industrial chinesa, reduzir dependências estratégicas e estimular a reindustrialização americana.

Canadá, Índia, Camboja e Laos
O Canadá, por sua vez, talvez seja hoje o caso mais comparável ao brasileiro. Apesar da profunda integração econômica entre os dois países e da existência do USMCA, Trump anunciou novas tarifas de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses.
O curioso é que a lista preservou precisamente os itens considerados estratégicos para a economia americana, como energia, potássio, minerais críticos e parte da produção pesqueira.
Foram atingidos principalmente móveis, bebidas, cimento, equipamentos esportivos e diversos manufaturados. A mensagem política foi dura, mas a implementação revelou um cuidado evidente para não comprometer cadeias produtivas essenciais aos próprios Estados Unidos.
A Índia viveu situação semelhante. Inicialmente submetida a tarifas da ordem de 25%, viu alguns de seus produtos alcançarem sobretaxas de até 50%, em parte como reação às compras indianas de petróleo russo. Poucos meses depois, entretanto, uma rodada de negociações reduziu significativamente essas alíquotas.
O episódio reforça uma característica recorrente da estratégia comercial de Trump: anunciar medidas extremamente severas para ampliar seu poder de barganha e, posteriormente, apresentar a redução das tarifas como resultado de uma negociação bem-sucedida.
Países menores também foram fortemente atingidos. Camboja e Laos receberam algumas das maiores alíquotas inicialmente anunciadas, próximas de 49% e 48%, respectivamente. Embora posteriormente revistas, permaneceram entre as tarifas mais elevadas do mundo.
O argumento oficial era combater desequilíbrios comerciais e evitar que esses países funcionassem como plataformas de exportação indireta da indústria chinesa.
Myanmar enfrentou sobretaxas próximas de 40%, afetando principalmente sua indústria têxtil e de confecções. A África do Sul foi submetida a tarifas de aproximadamente 30% sobre veículos, produtos agrícolas e manufaturas, em um contexto claramente influenciado também por divergências diplomáticas.
A Suíça, apesar de seu elevado grau de desenvolvimento, chegou a sofrer tarifas superiores a 35%, justificadas pelo grande superávit comercial que mantém com os Estados Unidos.
O México, por sua vez, recebeu tratamento diferenciado: produtos enquadrados nas regras do acordo USMCA permaneceram protegidos, enquanto aqueles fora do tratado passaram a enfrentar sobretaxas relevantes, especialmente nos setores em que Washington desejava estimular produção doméstica.
Esse panorama permite uma primeira conclusão importante: o Brasil não foi o país mais tarifado nem o único alvo da política comercial americana. A diferença reside na natureza do caso brasileiro.
Ao contrário da China, o Brasil não representa um competidor sistêmico dos Estados Unidos. Diferentemente do Canadá ou do México, não integra uma cadeia industrial profundamente interdependente com a economia americana. Mais importante ainda, os Estados Unidos mantêm historicamente superávit comercial na relação bilateral com o Brasil.
Isso significa que o argumento utilizado por Trump para justificar grande parte de suas medidas – reduzir déficits comerciais americanos – simplesmente não se aplica ao caso brasileiro.
Essa inconsistência tornou-se ainda mais evidente quando se observou a evolução da lista de produtos efetivamente atingidos.
Nos primeiros anúncios, a impressão era de que praticamente todas as exportações brasileiras seriam penalizadas. Pouco tempo depois, contudo, começaram a surgir sucessivas exceções.
Quem ficou de fora
Permaneceram fora das tarifas produtos cuja ausência provocaria custos significativos para empresas e consumidores americanos: petróleo bruto, derivados energéticos, componentes aeronáuticos, aeronaves, minério de ferro, minerais críticos, fertilizantes, celulose, café, carne bovina e suco de laranja.
Essas exclusões não decorreram de qualquer gesto de boa vontade diplomática. Foram resultado da própria estrutura das cadeias produtivas internacionais. Em todos esses casos, os Estados Unidos dependem, em maior ou menor grau, do fornecimento brasileiro. Substituí-lo rapidamente implicaria aumento de custos, perda de competitividade industrial ou pressão inflacionária sobre o mercado doméstico.
Os produtos que permaneceram sujeitos às tarifas apresentam característica distinta: são justamente aqueles cuja substituição internacional é relativamente mais simples.
O açúcar brasileiro continua extremamente competitivo, mas enfrenta concorrência de produtores do Caribe, da América Central e do México. O etanol disputa espaço com a produção americana baseada em milho, cuja proteção sempre foi uma prioridade política em estados agrícolas estratégicos.
O setor pesqueiro nordestino talvez tenha sido um dos mais atingidos proporcionalmente, especialmente porque Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia concentram parte importante das exportações destinadas ao mercado americano. O mel e o tabaco também podem ser substituídos por fornecedores de outras regiões do mundos com relativa facilidade.
Na indústria de transformação, os segmentos mais vulneráveis continuam sendo calçados, móveis e parte das máquinas e equipamentos. Todos competem em mercados altamente sensíveis ao preço e enfrentam concorrência direta de produtores asiáticos.
Pequenas variações tarifárias são suficientes para alterar decisões de compra de grandes distribuidores americanos.
Entretanto, limitar a análise às empresas exportadoras seria um erro. Cada um desses produtos sustenta uma cadeia produtiva complexa.
Quando uma tarifa incide sobre o açúcar, não são afetados apenas os exportadores, mas também produtores rurais, cooperativas, fornecedores de insumos, transportadores, operadores ferroviários, terminais portuários e empresas de logística.
O mesmo ocorre na pesca, onde frigoríficos, fábricas de gelo, armadores, distribuidores e trabalhadores portuários sofrem conjuntamente os efeitos da retração das exportações. Nos setores moveleiro, calçadista e de máquinas, a repercussão alcança centenas de pequenas e médias empresas fornecedoras de componentes, madeira, aço, couro, ferragens, peças metálicas e serviços especializados.
Alguns casos ilustram de maneira particularmente didática as limitações dessa política tarifária. O café brasileiro, inicialmente incluído entre os produtos atingidos, rapidamente foi retirado da lista. A razão era simples: importadores americanos demonstraram que não existia oferta alternativa suficiente para substituir o produto brasileiro sem provocar elevação significativa dos preços ao consumidor.
Situação semelhante ocorreu com o suco de laranja, cuja cadeia de abastecimento americana depende historicamente da produção brasileira. Em ambos os casos, prevaleceu a realidade econômica sobre a retórica política.
Essa talvez seja a principal característica da política comercial de Trump. As tarifas deixaram de ser um fim em si mesmas para transformar-se em instrumentos permanentes de negociação.
Comércio internacional contemporâneo
O padrão repete-se com notável regularidade: anuncia-se uma medida extrema, produz-se um ambiente de incerteza, iniciam-se negociações bilaterais e, posteriormente, parte das tarifas é flexibilizada ou substituída por acordos específicos. China, Índia, Canadá, Suíça e diversos outros países passaram por esse mesmo roteiro.
Nesse contexto, a resposta brasileira merece uma reflexão menos apaixonada do que aquela predominante no debate político doméstico.
Diante da provocação, havia duas possibilidades: responder imediatamente com retaliações simétricas ou preservar canais diplomáticos enquanto se buscava apoio jurídico e político dentro das próprias instituições americanas. Os acontecimentos posteriores sugerem que a segunda estratégia produziu resultados mais consistentes.
Importadores americanos organizaram forte pressão sobre o Congresso. Empresas recorreram ao Judiciário. O Senado manifestou-se contra parte das medidas. Tribunais passaram a limitar o uso da legislação emergencial utilizada para justificar algumas das tarifas.
O centro da controvérsia deslocou-se progressivamente da relação bilateral Brasil – Estados Unidos para uma discussão interna sobre os limites constitucionais do poder presidencial em matéria comercial.
A lição que emerge desse episódio vai além das relações entre Brasília e Washington. O comércio internacional contemporâneo tornou-se profundamente integrado. As cadeias globais de valor fazem com que uma tarifa imposta contra um país frequentemente recaia também sobre empresas, trabalhadores e consumidores do próprio país que a instituiu.
Por essa razão, políticas comerciais concebidas como instrumentos permanentes de coerção tendem a produzir efeitos colaterais cada vez mais difíceis de controlar.
O Brasil não foi o maior alvo dessa estratégia, tampouco será o último. Mas seu caso talvez seja um dos mais reveladores. Demonstrou que, mesmo em um ambiente internacional cada vez mais sujeito à geopolítica, continuam existindo limites econômicos para decisões políticas.
Governos podem anunciar tarifas por decreto. Mercados, cadeias produtivas e consumidores, porém, continuam sendo os responsáveis por determinar quais delas serão efetivamente sustentáveis ao longo do tempo. É precisamente nessa diferença entre o poder de anunciar e a capacidade de manter que reside a principal fragilidade do atual tarifaço americano.
(Jean Paul-Prates foi presidente da Petrobras e senador da República)
















