Segundo a CoinMetrics, mais de 70% das negociações em exchanges globais são liquidadas em stablecoins, e não em moedas fiduciárias
Por Charles Machado – SC
Nesse momento as atenções se voltam para um novo grupo de ativos digitais, os stablecoins, que vem roubando a atenção que até então era dominada pelos bitcoins.
Conceitualmente, stablecoins são ativos digitais lastreados em moedas fiduciárias, commodities ou outros ativos, projetados para manter paridade estável de valor. O exemplo mais conhecido é o USDT (Tether), atrelado ao dólar americano, mas há dezenas de alternativas que desempenham papel fundamental no mercado, o que por si só já pode dar a dimensão que estamos apenas nos primeiros passos.
É justamente esse formato resolve um dos principais pontos de crítica às criptomoedas: a volatilidade, pois ao manter valor estável, as stablecoins permitem que investidores, empresas e instituições financeiras façam transações seguras, rápidas e de baixo custo em qualquer lugar do mundo, sem depender de intermediários tradicionais.
No momento o volume de transações com stablecoins já ultrapassa US$ 10 trilhões anuais, superando gigantes como Visa e Mastercard em movimentação global, e pense que estamos falando das duas maiores empresas de meios de pagamento, que levaram décadas para chegar ao volume que os stablecoins conseguiram em apenas alguns anos.
Segundo a CoinMetrics, mais de 70% das negociações em exchanges globais são liquidadas em stablecoins, e não em moedas fiduciárias.
Por aqui, de acordo com a Receita Federal, o USDT lidera as transações desde 2023, movimentando mais de R$ 210 bilhões em 2024, acima de qualquer outra criptomoeda, incluindo o Bitcoin. Globalmente, relatórios da Circle e da Chainalysis mostram que stablecoins já respondem por mais de 60% do uso de cripto em transferências transfronteiriças.
Números esses que reforçam que as stablecoins deixaram de ser apenas um instrumento de arbitragem em exchanges para se tornarem um meio de pagamento e liquidação internacional.
Empresas utilizam stablecoins para reduzir custos e prazos em transferências internacionais, que podem cair de dias para minutos. Inclusão financeira: permitem acesso a ativos dolarizados em países com alta inflação ou moedas instáveis.
Muitas companhias já utilizam stablecoins como reserva de caixa digital, aproveitando liquidez global. Integração regulatória: no Brasil, discussões em torno do Drex mostram que stablecoins e moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) caminham em paralelo, complementando-se como soluções de pagamento digital, algo irrefreável, em que pese as milhares de fake News delirantes que circulam na fogueira das sandices das redes sociais.
É inegável que estamos diante de uma nova camada da infraestrutura financeira global, pois se o bitcoin consolidou a ideia de escassez digital e o Ethereum trouxe aplicações descentralizadas, são as stablecoins que estão sendo responsáveis por criar o elo entre o mundo cripto e o mercado tradicional.
Na ata da última reunião do Federal Reserve (Fed) registrou que “muitos participantes discutiram desdobramentos recentes e prospectivos relacionados a stablecoins de pagamento e possíveis implicações para o sistema financeiro”.
Alguns dirigentes observaram que a utilização dessas moedas digitais pode crescer após a recente aprovação do Genius Act nos EUA.
Segundo o documento, alguns participantes destacaram que stablecoins de pagamento poderiam ajudar a melhorar a eficiência do sistema de pagamentos e também “aumentar a demanda pelos ativos necessários para lastreá-las, incluindo títulos do Tesouro”.
Ao mesmo tempo, o Fed avaliou que o avanço desses instrumentos “pode ter implicações mais amplas para os sistemas bancário e financeiro, assim como para a implementação da política monetária”.
A ata destacou que, diante desse cenário, os dirigentes “consideraram que o tema merecia atenção cuidadosa”, incluindo o acompanhamento próximo dos diferentes ativos usados como lastro, afinal ainda navegamos sob águas turvas no seu processo regulatório.

Instituições financeiras detectam um vácuo legal
Lembro que no momento em que Donald Trump assinou a lei sobre stablecoins nos Estados Unidos, em 18 de julho, todo mercado cripto aplaudiu, e não sem motivo.
Naquele momento a euforia era palpável e também se fazia sentir no mercado, com as principais criptomoedas que se aproximaram das suas máximas históricas, porém um mês depois, essa alegria é deixada para trás. A Lei Genius, a primeira lei a regular o mercado no país, representa um avanço e todos os setores o reconhecem. No entanto, as primeiras falhas já foram detectadas.
Os grandes bancos pediram aos legisladores que corrigissem os regulamentos e proibissem qualquer entidade de pagar juros pela posse de stablecoins, uma questão que aumentou o pulso das empresas de criptomoedas.
O Genius Act afirma que “nenhum emissor de stablecoin autorizado deve pagar ao detentor de uma stablecoin qualquer forma de juros ou rendimento (seja em dinheiro, tokens ou outra contraprestação), exclusivamente pela detenção, uso ou retenção de tal ativo”.
Nesse ponto, as instituições financeiras detectam um vácuo legal: embora os emissores sejam proibidos, outros atores, como bolsas, intermediários e corretoras que atuam como canais de distribuição desses ativos, podem continuar oferecendo recompensas aos usuários, contornando as exigências da lei.
Por isso, em nome das principais instituições financeiras, as associações de banqueiros estatais enviaram uma carta aos legisladores com o objetivo de pressionar para estender a proibição de pagamentos de juros a esses atores, temendo que os clientes prefiram transferir seus depósitos bancários para stablecoins em busca de rendimentos e que isso cause uma fuga de depósitos.
“Os bancos impulsionam a economia transformando depósitos em empréstimos, e quando os depósitos fluem para stablecoins, a criação de crédito sofre”, diz a carta. Nesse cenário, os custos dos empréstimos aumentariam e o crédito disponível para empresas e famílias seria reduzido, argumentam.
Um relatório do Tesouro dos EUA em abril passado estima que o boom neste mercado pode levar a uma saída de US$ 6,6 trilhões em depósitos para stablecoins, dependendo se elas oferecem ou não rendimentos e em que medida.
Além disso, aponta que, diante da crescente concorrência, os bancos podem ser forçados a aumentar os juros que pagam aos clientes ou buscar fontes alternativas de financiamento.
Os analistas observam que as stablecoins devem oferecer rendimentos muito mais altos do que os bancos e devem se tornar mais úteis e seguras (os bancos oferecem proteção de seguro de depósito aos clientes, enquanto as stablecoins não são seguradas) para atrair mais clientes.
Consumidores e seus movimentos de manada quase sempre provocam destruição, então é preciso muita cautela nesse momento, para entender a dimensão e o seu papel na nova economia digital.


