O movimento ocorre em meio ao aumento das incertezas no cenário internacional, com destaque para a guerra no Oriente Médio
Por Misto Brasil – DF
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira (18) reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 15% para 14,75% ao ano. A decisão foi unânime e marca o primeiro corte de juros em quase dois anos.
A última redução da taxa básica havia ocorrido em maio de 2024. Desde então, o Banco Central elevou os juros ao longo de 2025, até atingir 15%, e manteve a Selic nesse patamar até a reunião de hoje.
O movimento ocorre em meio ao aumento das incertezas no cenário internacional, com destaque para a guerra no Oriente Médio.
No comunicado, o Banco Central afirmou que o ambiente externo “tornou-se mais incerto” com o acirramento dos conflitos na região, com impacto sobre as condições financeiras globais e os preços de commodities.
Segundo a autoridade monetária, esse cenário exige cautela por parte de países emergentes, diante da maior volatilidade nos preços de ativos e dos riscos inflacionários.
No cenário doméstico, o Copom avaliou que a atividade econômica segue em trajetória de moderação, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra resiliência. A inflação apresentou algum arrefecimento nas últimas leituras, mas permanece acima da meta.
As expectativas para os próximos anos seguem desancoradas. A pesquisa Focus indica inflação de 4,1% em 2026 e de 3,8% em 2027. Já a projeção do próprio Banco Central para o terceiro trimestre de 2027 está em 3,3%.
O BC afirmou ainda que os riscos para a inflação se intensificaram após o início da guerra no Oriente Médio. Entre os fatores de alta, citou a possibilidade de desancoragem das expectativas, maior persistência da inflação de serviços e efeitos do câmbio e do cenário externo.
Mesmo com o ambiente mais incerto, o comitê avaliou que o período prolongado de juros elevados já produziu efeitos sobre a desaceleração da atividade, abrindo espaço para o início da flexibilização monetária.
A repercussão da decisão do Copom
Caio Portugal – presidente da Associação das Empresas de Loteamento e Desenvolvimento Urbano, com 1.100 empresas associadas no Brasil – “Dentro de um cenário de maior incerteza global, especialmente com os impactos da guerra no Oriente Médio sobre o petróleo e o câmbio, o COPOM reforçou a tendência esperada de um corte da taxa Selic, apesar de mais cauteloso. O mercado terá que revisar suas expectativas, saindo de uma redução de 0,5 ponto para 0,25 ponto percentual, refletindo o aumento das pressões inflacionárias.”
“Para o setor de loteamentos e desenvolvimento urbano, representado pela AELO, a redução dos juros continua sendo essencial para destravar investimentos e ampliar o acesso ao crédito imobiliário. No entanto, mesmo um corte mais moderado já sinaliza uma inflexão importante no ciclo econômico.”
“O ponto de atenção é que a instabilidade externa pode prolongar um ambiente de crédito ainda restritivo. Por isso, defendemos previsibilidade na política monetária e medidas complementares que estimulem o financiamento habitacional e a produção de novos empreendimentos.”
Flávio Serrano – economista-chefe do Banco Bmg, fez uma análise sobre a decisão – “O Copom decidiu cortar a taxa básica de juros em 0,25p.p. para 14,75% a.a., confirmando nossas expectativas. Os membros do comitê destacaram o aumento da incerteza em relação ao cenário internacional — derivado do conflito no Oriente Médio. No cenário doméstico, o documento trouxe poucas novidades, com o comitê destacando o processo de desaceleração da economia e, por outro lado, a resiliência do mercado de trabalho.
Assim, o Copom julgou apropriado dar início ao ciclo de calibração da política monetária com um ajuste mais modesto. Como o esperado, o BC não sinalizou o próximo movimento, e a magnitude deste dependerá da evolução do cenário prospectivo. Um novo ajuste de 25bps ou uma eventual aceleração para 50bps estão condicionados aos desdobramentos da guerra entre EUA e Irã.
Se o cenário se mantiver volátil, o BC deverá manter o conservadorismo e seguir com esse ritmo. Caso as tensões diminuam e os preços do petróleo voltem a cair, a autoridade monetária poderá ajustar o ritmo de cortes. Mantemos nossa projeção de um ciclo de 300bps de corte, que levará a taxa Selic para 12% a.a. no final de 2026.”
Murilo Arjona – especialista em financiamento imobiliário, – A leitura do mercado considera que fatores como o aumento do preço do petróleo, impulsionado por conflitos internacionais, tendem a pressionar a inflação no curto prazo. Esse movimento exige cautela da autoridade monetária, já que combustíveis e logística impactam diretamente o custo de vida. Ainda assim, a política monetária não reage apenas a eventos pontuais, mas ao comportamento mais amplo da economia.
Banco BV – Mantemos a nossa avaliação de que o BC seguirá no ritmo atual na próxima reunião ao final de abril e, confirmada nossa expectativa de alívio no conflito até meados de junho, acelerar o ritmo de ajuste para 0,50 p.p.. No cenário mais provável, o ano se encerra com a taxa básica em 12%.
Rafael Cardoso – economista-chefe do Daycoval – A gente acreditava que o Banco Central, a despeito de qualquer coisa, deveria e iria começar o ciclo de forma mais conservadora. Em relação à comunicação do Banco Central, obviamente caracteriza o cenário externo como mais incerto.
A gente sabe que as implicações desse cenário incerto, principalmente sobre o petróleo, inflação e assim por diante, na ótica da atividade doméstica fala que continua moderando, mas o mercado de trabalho está resiliente, no entanto, a gente tem a impressão de que o Banco Central está preocupado com os efeitos defasados da política monetária sobre uma atividade que já desacelerou e essa seria uma das razões iniciar o ciclo de cortes.
Marcos Freitas – analista macroeconômico da AF Invest – Observou-se uma mudança pouco significativa no comunicado. Houve alguns ajustes de tom para ressaltar uma atividade econômica em linha com o esperado e, de fato, em processo de enfraquecimento.
A inflação segue acima da meta, mas sem uma ênfase mais firme nesse ponto. O comunicado também menciona o conflito no Oriente Médio, destacando mais o grau de incerteza do que propriamente um risco altista relevante para a inflação.
Em síntese, o Banco Central parece encarar esse choque como algo de difícil previsão, mas que, neste momento, não gera uma preocupação adicional relevante para o ciclo de juros.




















