Para quem não conhece vale a pena folhear “Definitivo”, livro publicado em 1994 que reúne em ordem alfabética pensamentos, raciocínios, ideias e tudo o que for possível classificar do “irritante guru do Meyer” reunidos em mais de cinco mil frases que se resume “A bíblia o Caos”.
As 524 páginas, incluindo o índice remissivo, é uma impressionante leitura que pode ser vista de frente pra trás e de trás pra frente da amostra intelectual de Millôr Fernandes. A obra que recebi de presente da publicitária Noris Lima foi uma bela surpresa que agora se descortina. Noris conviveu com personagens emblemáticos da década de 1960 e 70, como o jornalista Fausto Wolf . Conheceu também gente do famoso Pasquim.
Da velha guarda do Jornalismo, Noris passou por poucas e boas nos últimos dois anos. Por duas vezes esteve “quase do outro lado”, como ela mesmo define. A última, foi uma cirurgia no coração que lhe partiu ao meio o peito. Hoje, está curtindo devagar a melhora da saúde e o seu pequeno Felipe, neto que há muito aguardava.
“A bíblia do caos” tem conceitos que se enquadra em nossa confusa e atual realidade política. Como esta, quando fala em apaziguador: “É o cara que pensa que tratando com cuidado um rinoceronte ele um dia dá leite de vaca”. Ou sobre Babel: “Começou com todo mundo falando línguas diferentes. Quando Deus quis que os homens se desentendessem fez todos falarem a mesma língua”.
E sobre burrice: “Quando ela manda, a suprema burrice é ser sábio”. E Brecht: “Para compreender a situação do Brasil, já ninguém discorda, é necessário um certo distanciamento. Que começa abrindo uma conta numerada na Suíça”.
Para falar do cotidiano: “O homem feliz não usava camisinha”. E mulher? “Basta uma mulher ser sexualmente dadivosa para se achar uma mulher liberada”.
Sobre a velha e boa e conturbada mídia, Millôr Fernandes selecionou oito frases. Numa delas – parece que é a preferida de muita gente que acha que a mídia não vale nada e não presta: “Os grandes meios de comunicação foram inventados quando ninguém tinha mais nada a dizer”. Ou esta: “Os acontecimentos na verdade já não acontecem. São fabricados nas poderosas oficinas da comunicação de massa”.
E sobre oposição: “A briga só existe porque eles afirmam que nós estamos contra eles, quando ninguém desconhece que eles é que estão contra nós”.
E para fechar. O comunismo também tem uma atenção especial desse intelectual que faz falta em nosso cotidiano. Em nove definições, escolhi esta: “Os comunistas vêm aí: vão tomar o desemprego da gente”.
Millôr Fernandes começou a trabalhar cedo na Imprensa. Nasceu no dia 16 de agosto de 1923 e morreu no dia 27 de março de 2012, aos 88 anos. Foi autor de uma vasta produção literária.
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