O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV) divulgou recentemente sondagem que aponta que uma em cada quatro famílias brasileiras tem alguém com dívidas em atraso.
De acordo com o estudo, mais da metade dos endividados afirmam que o problema está relacionado à pandemia, principalmente por causa da perda de emprego ou redução de salário. Ainda segundo a pesquisa, 26% dos entrevistados vivem em lares em que há pelo menos uma pessoa com dívida. Esse percentual sobe para 44% para famílias com renda de até R$ 2.100, especialmente após o fim do pagamento do auxílio emergencial do governo no ano passado.
A Sputnik Brasil conversou com dois especialistas para discutir as implicações econômicas e financeiras do impacto da pandemia no endividamento das famílias, e como esse cenário pode repercutir de um modo geral na sociedade como um todo.
Ricardo Summa, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, avaliou as implicações econômicas da questão levantada pela pesquisa. Ele afirmou que não viu nenhum estudo que tivesse uma mensuração bem sistemática sobre esse efeito da inadimplência como também do endividamento das famílias.
Para Summa, uma vez que as famílias reduzem o consumo e o pagamento de contas, isso tem um segundo efeito sobre a economia, o chamado efeito multiplicador dos gastos, que também vai reduzir a renda de outras pessoas que não recebiam inicialmente o auxílio emergencial.
Ainda segundo publicado na sondagem do Ibre-FGV, nos últimos meses, o endividamento cresceu para todas as faixas de renda, mas o quadro tem sido dramático para os mais pobres porque a capacidade desse grupo de acumular uma poupança de precaução, destinada ao pagamento de algum imprevisto, é bem menor.
Valor ideal do benefício nesta pandemia – Considerando que o auxílio emergencial do governo ajudaria a mitigar o problema do endividamento das famílias, Summa esclareceu que seu valor deveria ser fruto de um estudo muito mais detalhado, com uma certa previsibilidade de quanto tempo vai durar a pandemia.
Segundo Summa, o valor de R$ 600 por um período mais longo seria importante para enfrentar algo que não foi de curtíssimo prazo, pois a pandemia continua ainda se manifestando. “Vimos que a classe C, que foi a grande conquista dos anos 2000/2010, tem diminuído, que a fome voltou, a pobreza absoluta também voltou […] Então, o que foi feito não foi certo e o que teve um resultado muito forte foi o auxílio de R$ 600.
Uma pesquisa elaborada pelo Instituto Locomotiva mostrou que, com o aumento do desemprego e a queda geral da renda das classes mais baixas, a classe C deixou de compreender a maioria dos brasileiros. O percentual da população brasileira pertencente à chamada classe média tradicional caiu de 51% em 2020 para 47% em 2021, ou seja, o mesmo ‘tamanho’ da classe baixa.
Na opinião do economista o impacto da inflação sobre a economia das classes menos favorecidas foi muito baixo, “se bobear quase zero”, porque a maioria dos alimentos da cesta básica tem o preço determinado no mercado externo.
Um problema que ficou pior – Summa explicou que quando se tem problema de alta dos preços muito forte dos alimentos, quando eles não são transacionáveis, quando não são determinados em dólar, é porque houve uma quebra de safra e não um aumento repentino. O que houve foi uma desvalorização cambial muito forte, que afetou diretamente os preços dos alimentos denominados em dólar e afetou os custos de produção dos bens que são determinados na moeda doméstica, mas que usa uma série de insumos denominados em dólar.
Perguntado se a pandemia é a única responsável pela situação econômica e financeira atual do país, o professor da UFRJ diz acreditar que — se for olhar uma série de crescimento do PIB —, desde 2014 o país teve dois anos de queda muito forte do PIB no segundo governo Dilma Rousseff e quando entra o de Michel Temer.
Para ele, obviamente que a pandemia e as respostas a ela, o auxílio — que foi por pouco tempo e que foi finalizado, depois foi reduzido — e o fato dela estar durando muito mais tempo do que talvez o governo previsse quando pensou nos auxílios, isso sim está levando uma economia que já vinha frágil para outro patamar, e não a inflação.

Bancos e linhas de crédito -A Sputnik Brasil ouviu outro economista — Norberto Martins, também professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ) — para comentar sobre a questão financeira relacionada ao endividamento das famílias brasileiras.
Ele disse que vê nos dados divulgados pelo Banco Central (BC) em relação ao último trimestre — que terminou em março, embora os dados sejam da última semana de abril — que, no geral, não houve aumento de inadimplência de pessoas físicas.
E por que isso não aconteceu? Segundo ele porque a queda da renda atingiu principalmente pessoas e famílias que não tem um acesso tão regular ao mercado de crédito formal. São pessoas que simplesmente não acessam esse mercado por não ter um histórico de pagamento, por não ter capacidade de refinanciamento de suas dívidas e isso já é visto pelas próprias instituições financeiras, que já racionam crédito para essas famílias.
Martins também fez um comentário sobre a influência da taxa Selic, hoje em 12,75% ao ano, sobre os indicadores de custo de crédito. Ele disse que no ano passado houve uma redução significativa do indicador, que por sua vez levou a uma redução significativa dos custos de captação das instituições financeiras, e no contexto da pandemia essa redução foi sim repassada para os preços em termos dos empréstimos.
Mais pobres ficam mais pobres – Martins explicou que a taxa Selic, nesse caso em relação ao spread, funciona como uma espécie de “custo de oportunidade”. A maior parte dos trabalhos acadêmicos que tentam avaliar porque o spread bancário atual ainda é alto chegam a uma conexão muito importante entre o nível de spread e o nível da taxa Selic, porque em última instância é esse nível que vai determinar a aplicação dos recursos captados em determinadas operações ou não.
Martins explicou que o Brasil voltou ao mapa da fome, uma condição extremamente preocupante em termos dos indicadores sociais, que se agravam pelo fato de durante o primeiro trimestre o governo ter adotado uma estratégia de não prorrogar e não conceder um novo auxílio emergencial no pior momento da pandemia.
“Desse lado da equação, a situação é desoladora, muito complexa e vai exigir uma resposta do estado brasileiro. Efetivamente é difícil tratar disso do ponto de vista do mercado de crédito pensando que daqui a um tempo a gente vai ter possivelmente uma massa de inadimplentes.
As famílias brasileiras saem dessa crise num patamar de endividamento que é substancial, a maior da série histórica, comprometidas com o pagamento dessas obrigações financeiras que se acumularam nos últimos meses. Vemos que mais de 50% da renda auferida nos últimos 12 meses pelas famílias vai se destinar ao pagamento de empréstimos e isso efetivamente vai comprometer ainda mais a situação”, finalizou o economista.














