Desde o início da pandemia, 1.503 crianças de zero a 11 anos morreram por causa da doença
A taxa de transmissão da Covid-19 (Rt) no Brasil bateu recorde em 25 de janeiro de 2022, chegando a 1,78 (100 infectados podem transmitir para 178 indivíduos), segundo monitoramento do Imperial College de Londres. Uma semana antes, a taxa era de 1,35. A responsável é a variante ômicron, muito mais transmissível que as anteriores.
Apesar da disparada de casos entre a população adulta ocorrer desde dezembro no país, de acordo com o último boletim epidemiológico da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o aumento de casos de síndrome respiratória aguda grave entre as crianças de zero a nove anos teve início muito antes, em outubro de 2021.
Desde o início da pandemia, 1.503 crianças de zero a 11 anos morreram por Covid-19 no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde. Mais de 78% destes óbitos (1.179) foram entre as crianças de zero a quatro anos.
Os efeitos de três meses seguidos de alta nos casos de coronavírus entre a população infantil são sentidos agora: levantamento da Folha de São Paulo publicado em 26 de janeiro mostrou que, em pelo menos sete estados, a ocupação dos leitos UTI covid para crianças está em 80% da sua capacidade. Em alguns deles, a ocupação pode chegar a 100%.
Porém a transmissibilidade recorde atribuída à variante ômicron não explica isoladamente a atual crise de leitos UTI covid pediátrica, mas expõe um problema estrutural muito anterior à pandemia.
“O cenário de vagas em unidades de terapias intensivas pediátricas no Brasil em geral é insuficiente desde sempre. Essas UTIs vivem cheias em qualquer período e contexto”, observa o pediatra infectologista Marco Aurélio Sáfadi, diretor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
Por que os casos de SRAG cresceram
Assim, de acordo com o Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o aumento dos casos de síndrome respiratória aguda grave desde outubro e a atual lotação os hospitais se deu por quatro motivos:
– Apesar de não ser mais letal do que as demais variantes, a ômicron tem infectado mais as crianças, a única parcela da população que ainda não se vacinou contra a covid-19 – a imunização a partir dos cinco anos teve início apenas em 17 de janeiro e caminha a passos lentos por todo o país. As crianças, principalmente as pequenas, são, neste momento, as mais expostas à infecção;
– Junto com o aumento da transmissão do coronavírus, os meses de novembro e dezembro foram marcados por uma epidemia de influenza fora de época, com um vírus para que ainda não há vacina, o H3N2;
– O Brasil flexibilizou as medidas sanitárias contra a covid-19;
– A rede hospitalar brasileira, tanto no SUS como na rede privada, tem uma carência crônica de leitos pediátricos. Qualquer evento adverso na saúde do público infantil pode sobrecarregar os hospitais.
O país tem 82.699 leitos para internação pediátrica, segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimento de Saúde (CNES), mantido pelo Ministério da Saúde. Em contrapartida, a população infantil brasileira (zero a 12 anos) é de 35,5 milhões, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia Espacial (IBGE). Ou seja, o país oferta um leito para cada 430 crianças.
Do total de leitos pediátricos, 36.370 unidades – o equivalente a 43% – estão no Sistema Único de Saúde (SUS), e somente uma pequena parte em cada estado se destina à internação pela Covid-19. (Da DW)























