Romper esse ciclo – no caso, quebrar essa boneca – é um desafio de anos, talvez décadas
Texto de André César
Matrioska, também conhecida como boneca-russa, é um tradicional brinquedo da terra de Putin. Constitui-se de uma série de bonecas, geralmente feitas de madeira, colocadas umas dentro das outras – da maior para a menor, essa última a única que não é oca.
Qual a relação desse ícone da Rússia com o Brasil? Simples – aqui, vivemos uma crise permanente, sanitária dentro da ambiental dentro da hídrica dentro da democrática dentro da econômica dentro da social. Uma desalentadora matrioska tupiniquim.
Romper esse ciclo – no caso, quebrar essa boneca – é um desafio de anos, talvez décadas. A tragédia nacional começou em algum ponto do século XXI, talvez nas famigeradas manifestações de junho de 2013, que contaram então com o apoio de importantes setores da sociedade brasileira. O resultado está aí.
Hoje, o Brasil beira a irrelevância no cenário mundial. Pior, nossas (muitas) mazelas puxam o país para o fundo do poço – se é que existe esse fundo. Em um rápido resumo, a pandemia matou centenas de milhares de brasileiros e trouxe à tona outro tanto de negacionistas, que questionam, entre outras coisas, a efetividade das vacinas, a crise ambiental e os valores democráticos, enquanto a economia segue em frangalhos e a sociedade, dividida, assiste com naturalidade linchamentos e não se importa com seres humanos disputando espaço no lixo em busca de comida. A barbárie é aqui.
O eterno “país do futuro” tornou-se, na verdade, um experimento distópico. Um filme de baixo orçamento com um roteiro de terceira e atores medíocres.
O que esperar? As eleições de 2022 estão aí, mas não se deve ter grandes ilusões. Não existe um projeto nacional que ataque a fundo os problemas, não existe uma candidatura realmente consistente – aliás, a crença no “salvador da pátria” causou apenas danos ao país.
Quebrar a matrioska será uma tarefa hercúlea, que demandará muito sangue, suor e lágrimas. E levará tempo. As próximas gerações, quem sabe, viverão dias melhores.


