Lava Jato – a casa de câmbio que virou armazém

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Texto de Maurício Nogueira

Operação Lava Jato, que neste sábado (17) completa quatro anos, teve o ponta-pé inicial, na realidade, em Araraquara, município do interior de São Paulo, com a apreensão de 698 quilos de cocaína por cinco policiais rodoviários do Tático Ostensivo Rodoviário (TOR).

A ocorrência policial marca o início do filme “Polícia Federal – A Lei é para Todos” que conta história sublinhada por algumas diferenças em relação à realidade.

Carlos Habib Chater, citado no filme é o dono do posto da Torre, que inspirou o nome da operação Lava Jato. A mais devastadora contra a corrupção na história deste país. O empresário não tem mais uma loja de câmbio, que era muito frequentada – localizada na área de conveniência do posto de combustível.

No lugar da loja de câmbio, o Misto Brasília apurou que agora funciona o Armazém do Habib. Loja de conveniência com venda de bebidas importadas e charutos. 

Cocaína e palmitos – No começo do filme há uma apreensão de grande carregamento de cocaína em meio a embalagens de palmitos,  feita pela Polícia Federal (PF) e Polícia Rodoviária Federal (PRF). Em novembro de 2013, a investigação era feita pela Força Tarefa do Ministério Público Federal (MPF) e pela Polícia Federal de Curitiba.

A informação, até então, suspeita de carregamento de cocaína, foi comunicada à delegacia da PF de Araraquara. Segundo o delegado da PF, Nelson Edilberto Cerqueira, a missão foi passada adiante, sem sequer se imaginar o desdobramento da interceptação no tráfico de drogas, conforme informou em reportagem o site ACidadeON, de Araraquara.

Na fase inicial, o MPF trabalhava para desbaratar quadrilhas lideradas por quatro grandes doleiros brasileiros. Um deles, Carlos Habib Chater, dono de uma casa de câmbio, cujo endereço era o mesmo do Posto da Torre, próximo ao ponto turístico onde há uma Torre de TV, na área central de Brasília.

O juiz federal de primeira instância da Lava Jato, Sergio Moro, à época com pouca visibilidade nacional, determinou que a PF monitorasse Charter por meio de interceptação telefônica. Um aspecto curioso chamou a atenção dos agentes federais. Chater conversava com diversos doleiros, sem, no entanto, citar nomes dos interlocutores.

A investigação desdobrou para o tráfico e aquisição de cocaína trazida da Bolívia e Peru. Comentava-se que a droga chegava ao Porto de Santos, um entreposto para rumar à Europa.

No dia 21 de novembro de 2013, o policiamento militar rodoviário de Araraquara foi avisado pela PF da possível passagem de uma carga com cocaína cuja cidade de origem era do Mato Grosso.

O cerco foi realizado, por volta das 18 horas, no quilômetro 265 da Rodovia Washington Luís. A então equipe TOR, informa o site ACidadeON, era composta pelo subtenente Valdinei Antônio de Carvalho, o sargento Gilson José Bessegatto, ambos já reformados, o sargento Flávio Henrique Fazan, o cabo Eduardo Alexandre Morales e o soldado Rodrigo Mitsuo Assagra.

Sem saber, os policiais estavam prestes a desencadear um processo que fora muito além da apreensão de quase 700 quilos de cocaína.

O motorista e proprietário do caminhão utilizado no transporte da cocaína, Ocari Moreira, declarou que transportava uma carga com palmitos embalados. O filme mostra que a cocaína estava em vidros. O sargento Bessegatto informou que a droga estava acondicionada em formato de tijolos e pacotes imensos.

O motorista, após ser preso, confessou que entregaria parte da carga na região de Campinas e o restante seria levado para São Paulo. Na época, Ocari Moreira informou ter recebido R$ 10 mil pelo precioso frete.

A isca de polícia – Os policiais rodoviários atentaram para o fato de o motorista portar três celulares. Dois aparelhos usados, e um bem novo, conforme declarações do Cabo Morales. Com a autorização de um delegado, um dos integrantes da TOR se passou pelo motorista para atender uma ligação. Era o “batedor”, que seguia à frente do caminhão para detectar e evitar possíveis bloqueios policiais na rodovia.

O batedor, durante a ligação pelo celular ouviu que o caminhão havia quebrado e que a carga seria abandonada. O batedor se assustou e se dirigiu até onde estaria o caminhão e ao chegar foi preso, conforme o sargento Bessegatto.

“Não sabíamos quase nada, mas ficamos procurando até encontrar um caminhão com placas do Mato Grosso saindo de um posto. Resolvemos abordar e deu certo”, conta o sargento Flávio Henrique Fazan. Segundo ele, o filme mostra em uma cena perseguição e tiros, mas nada disso aconteceu na realidade.

A PF chegou ao suposto e mais tarde confirmado dono da cocaína apreendida em Araraquara. Tratava-se de Renê Luiz Pereira, que foi flagrado em conversa com um interlocutor, lamentando a apreensão da droga. Ele foi indiciado por associação com o tráfico, juntamente, com três presos pela Polícia Rodoviaria.

Segundo as investigações, após a apreensão em Araraquara, Renê menciona pela primeira vez o nome de Carlos Habib Chater. O doleiro operava há três décadas no câmbio negro, segundo as investigações, em endereços centrais do Distrito Federal. Ele era, segundo procuradores da Lava Jato, o responsável por levantar parte do dinheiro que havia viabilizado o carregamento de entorpecentes. Os fatos reforçaram a denúncia do envolvimento dele tanto com o câmbio ilegal quanto o tráfico de drogas.

O “Primo” – Ao seguir o caminho das transferências financeiras, chegou-se a uma lavagem de dinheiro. Diálogos e mensagens telefônicas interceptadas indicaram que Carlos Habib Chater conversava com outras pessoas (identificadas por codinomes) encarregadas de converter ativos ilícitos em moedas limpas, entregando-os na Bolívia aos fornecedores de cocaína.

Havia um interlocutor cujo apelido era “Primo”, o doleiro Alberto Youssef. O homem, que já tinha histórico criminal, também teria participado da ação. Diante das conexões, o juiz Sergio Moro mandou prender tanto Chater quanto Youssef em março de 2014.

O doleiro Yousseff foi o fio condutor que levaria aos desvios de recursos da Petrobras para partidos políticos. Pouco depois, o capítulo político começou a ganhar corpo.

De acordo com as investigações, foi no escritório de Youssef, em São Paulo, que ocorreu parte da operação financeira com os traficantes. Youssef obteve junto ao Ministério Público delação premiada. Réu confesso, ele abriu em delação nome de empresas, agentes públicos e puxou o fio da meada da corrupção sistêmica na Petrobras. A partir daí, as ações da Lava Jato mergulharam mais profundamente no âmbito político e com diversos desdobramentos.

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