Crença religiosa sempre existiu

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Livros como “O Zelota — A Vida e o Tempo de Jesus de Nazaré” (ed. Quetzal, 2014) e “No God but God: The Origins, Evolution, and Future of Islam” (Random House, 2005) figuraram nas listas de melhores best sellers.

A descrição que faz do que terá sido o Jesus histórico em “O Zelota” valeu-lhe críticas de setores religiosos, tal como a série Believer, na CNN, que o levou a dar voltas ao mundo à procura de manifestações religiosas marginais ou bizarras aos olhos de outros. Reza Aslan, nascido no Irã e fixado nos Estados Unidos, onde se tornou escritor e acadêmico na área das Religiões Comparadas, fez da religião o seu grande assunto de investigação.

 Nos últimos anos, tornou-se um crítico feroz de Donald Trump e dos evangélicos brancos que o apoiam, apesar de a sua vida ser “o exato contrário do que Jesus pregou”, como diz nesta entrevista ao Público.

Em Deus – Uma Biografia”, editado no final de 2018 em Portugal pela Quetzal, lança-se a uma tarefa ciclópica: contar a história da relação entre os humanos e o divino e perceber a raiz do “impulso” para humanizar Deus, que identifica como uma função cerebral da qual dificilmente os humanos se conseguem libertar.

Uma história que passa pelos deuses da Suméria que tinham relações sexuais e “nasciam de mães que os amamentavam quando eram pequenos”, por Osíris, que ensinou os antigos egípcios a cultivar a terra antes de ser “morto e desfeito em pedaços pelo seu irmão diabólico, Set, que espalhou os restos do corpo por todo o vale fértil do Nilo”, até Jesus, Deus feito homem de carne e osso, figura central da maior religião contemporânea. Veja a entrevista dada a Pedro Rios, do Público.

Os principais trechos da entrevista

“O que sempre quis foi atrair pessoas que normalmente não pegariam num livro sobre história da religião, seja sobre o islã, o Jesus histórico ou a história de Deus. Baseei a minha carreira em pegar em assuntos complexos do ponto de vista acadêmico e torná-los divertidos, fáceis. Fico muito contente por saber que as pessoas se interessam pelo meu trabalho”.

“Não é sobre se Deus existe ou não, mas sobre o que queremos dizer quando dizemos “Deus”, sobre como a própria ideia de Deus surge na história da evolução humana. Remonta ao puzzle fundamental que os biólogos evolutivos têm estado a tentar resolver há séculos. A crença em Deus é universal, existe em todas as culturas, em todos os povos, em todos os tempos. Há muitas provas arqueológicas de que a crença numa figura divina precede até a existência do Homo sapiens. Isto significaria que essas crenças são parte do nosso processo evolutivo e, se isso acontece, que deveria haver uma razão para isso — a regra da evolução determina que haja um propósito, alguma vantagem para que essa crença exista”.

“O problema é que 200 anos de investigação sobre o que poderá ser essa vantagem resultaram em nada. Literalmente, nada: pelo contrário, o consenso esmagador é que, longe de ser uma vantagem, essa crença é uma desvantagem. Não nos ajuda a sobreviver, mas, pelo contrário, tira-nos recursos que deviam ser usados para a sobrevivência e são canalizados para a expressão dessas crenças. Fiquei fascinado: não há motivo [na teoria da evolução das espécies] para a nossa crença na existência do divino. Quis explorar essa ideia de uma perspectiva científica e racional, mas também sem necessariamente negar a possibilidade de fé e de Deus”.

“Há mais de cem anos que andámos a dizer que Deus está morto. Talvez devêssemos deixar de dizer isso. Se olharmos para o mundo de hoje, constatamos que a religião é uma força em crescendo em grande parte do planeta. As pessoas estão cada vez mais a definir-se através da sua religião, talvez porque outras formas de identidade, sobretudo o nacionalismo, estão a começar a perder força. Deus e religião estão muito vivos, para o bem e para o mal”.

“Quero virar ao contrário essa ideia de que Deus não nos criou e de que nós é que criaámos Deus: digo que Deus não nos criou à sua imagem, nós é que criámos Deus à nossa imagem. Tal não significa que Deus existe ou não — não sei a resposta a essa pergunta, ninguém sabe! Quando digo que a fé é uma escolha, digo isso mesmo a sério. Penso que a fé é uma emoção, mais do que qualquer outra coisa, como o amor — não podemos provar a existência ou a inexistência do amor e de outras emoções, é algo que se sente. A fé é a mesma coisa. É uma resposta ao mundo que se baseia nas nossas próprias experiências, nos nossos sentimentos, em como nos vemos a nós mesmos e como vemos o mundo”.

“Acredite-se em Deus ou não, acredite-se em mais do que um deus ou não, isso não é importante: aquilo que me interessa é o que queremos dizer quando dizemos a palavra “Deus”. O que é fascinante, e o meu livro é sobre isso, é que, mais vezes do que o contrário, quer acredite em Deus ou não, quando diz a palavra “Deus” está a criar uma versão divina de você, a criar uma figura divina, que se parece, age, pensa e sente tal como você. Já agora, isto é tão verdade para os não crentes como para os crentes. Se Christopher Hitchens estivesse vivo e lhe perguntasse “não acredita em Deus, mas o que é que quer dizer quando diz Deus?”, Hitchens, como o resto de nós, acabaria por descrever Deus como uma versão de si mesmo. Somos inconscientemente forçados a pensar desta forma, é involuntário”.

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