O mistério do óleo derramado no litoral brasileiro

Óleo derramado praia Nordeste
Finalmente hoje os pescadores recebem auxílio após prejuízos com a mancha de óleo/Arquivo
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Há cinco semanas, manchas de óleo começaram a atingir a costa brasileira. O vazamento chegou aos nove estados do Nordeste, afetando 138 praias da região. Um relatório divulgado recentemente pela Petrobras concluiu que o material encontrado nas praias é uma mistura de óleos da Venezuela e que não é produzido, transportado ou comercializado pela estatal brasileira. As primeiras manchas apareceram no início de setembro em praias pernambucanas. Hoje, na Câmara dos Deputados, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu que o óleo é mesmo venezuelano.

No entanto, ainda é incerto como o vazamento ocorreu. “É muito cedo ainda para dizer quem é o responsável”, avaliou o cientista político Oliver Stuenkel, da FGV. “Nem mesmo o governo brasileiro sabe exatamente como isso aconteceu. Mas é incrível quanto tempo leva [para se descobrir os responsáveis], já que o problema é claramente visível há algumas semanas.”

Thiago Almeida, porta-voz do Greenpeace para assuntos de clima e energia, afirmou que independentemente de o óleo vir da Venezuela ou não, é preciso ter em mente os impactos negativos. “E a demora por uma resposta efetiva assusta muito”, acrescentou. Ele diz que causa ainda surpresa o fato de o governo não ter reagido de forma mais rápida.

Adriano Pires, diretor-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), afirmou que “tem que ser checado como vazou tudo isso”. “Meu palpite é que, pelo volume de petróleo que está nas praias, ocorreu vazamento em algum navio que saiu carregado de óleo da Venezuela em direção à Ásia. Você tem uma ‘avenida’ em frente ao Nordeste onde esses navios passam. Só tenho essa hipótese”, frisou. Pires descarta um vazamento numa plataforma da Venezuela por não haver manchas de óleo na costa norte da América do Sul.

O presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, apontou três possibilidades como origem do petróleo: um despejo criminoso, a possibilidade de um navio ter naufragado e um acidente durante a passagem de petróleo de uma embarcação para a outra em alto-mar. Devido à quantidade de óleo – até o momento, 133 toneladas foram removidas das praias – descartou-se como causa a limpeza de tanques de um navio.

Especialistas avaliam que, pelas correntezas, o vazamento se deu a 40 ou 50 quilômetros da costa brasileira, entre os estados de Pernambuco e Paraíba. Cerca de 140 navios passaram pela rota no período em questão, informou a Marinha brasileira. Este caso mostra como é difícil controlar a situação em alto-mar. Para Stuenkel, “o controle sobre essas áreas ainda é muito fraca e, por isso, é provável que não seja possível descobrir exatamente como isso aconteceu”.

A Petrobras descartou qualquer envolvimento com as manchas. Em agosto, um vazamento na Refinaria Abreu e Lima, localizada em Ipojuca, ao sul de Recife, poluiu 4,5 hectares de costa. Pouco depois, as primeiras manchas apareceram justamente numa região próxima à refinaria. Na época, a Petrobras declarou que o óleo vazado em Abreu e Lima não atingiu o mar e que o petróleo vindo de perfurações brasileiras teria uma consistência diferente das manchas vistas nas praias nordestinas.

Sem saber exatamente a origem, também é difícil estimar a extensão do derramamento de óleo. “Como não se conhece a fonte, a quantidade e quando realmente começou [o derrame], não há como saber para onde as correntes ainda vão levar o óleo e quanto petróleo ainda está por vir”.

No entanto, como Rússia e China – aliadas do governo em Caracas – não permitem nenhuma decisão contra a Venezuela no Conselho de Segurança, as sanções brasileiras contra os venezuelanos são atualmente impensáveis.

“Só em circunstâncias muito extremas, que eu não consigo imaginar neste momento, que Rússia e China renunciariam à sua aliança com a Venezuela”, frisou Stuenkel. “E é improvável que um derramamento de petróleo no Nordeste brasileiro mude isso.” (Da DW)

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