O perigoso mundo sem frustração

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Dizem que o envelhecimento é como o vinho/Arquivo/NCultura
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Temos limitações que devem ser respeitadas, principalmente as físicas, que decorrem do processo de envelhecimento

Texto de Viviane Roussenq

Li um post da atriz Marieta Severo nesta semana que incomodou os poucos neurônios da minha cabeça sempre a queimá-los no ofício de uma vida inteira como jornalista. Marieta falava do temor que sentia diante das novas gerações que não saberão lidar com a ausência de frustrações, enfatizando, claro, as novas gerações classe média e alto clero. Os lascados continuarão a vivê-las, como as vivem hoje.

Explico melhor: hoje já é assim este mundão. Não há ansiedade, medo que não tenha um leque de oportunidades para que não incomode aquele ser inquieto, mas nem tanto com algo essencial de nossas vidas que é o desejo de descobrir, a ânsia de conhecer mais coisas.



Inquieto sim com sua aparência. Sim, porque enquanto a sede de conhecer existir, a vida acontecerá. Quando isso morrer, a vida acaba e não é preciso ser velho. Desconfio que cada vez mais esta sede de conhecimento esteja menor. Basta ouvir os hits brasileiros do momento e se perguntar qual foi a última vez que leu um livro, foi a um teatro, assistiu a um bom filme.

Por conta do Jornalismo, sempre li bastante, abri meu universo para o entendimento de questões complexas, portanto ainda quero saber mais. Ainda assim, observando o Instagram – observar gente é uma das coisas que mais gosto-, percebo que até eu mesma, cinquentona e vaidosa assumida, já caí na cilada. Tá descontente com o corpo, com o cabelo, com o rosto? Temos a solução.

E cinquentona que daqui a pouco vai dobrar o cabo da Boa Esperança, não minto que enveredei a pesquisar um arsenal de procedimentos estéticos na ânsia de adiar a minha degeneração genética. Finalmente acordei deste pesadelo onde o padrão feminino de beleza imposto é esteticamente artificial e morto.

São milhões de caras iguais, jovens com 20, 30 anos “prevenindo rugas” que nem sabe se terão. Podem me apedrejar. Eu já fui refém (mesmo que por um brevíssimo tempo) desta nova mentalidade de vida que é “Fique feliz! Você não tem motivo para frustrações. Velha? Nunca! Mulheres com cinquenta são as meninas de vinte.”



Academia e corpo sarado? Podem me bater. Já exigi demais de mim. Peguei pesado demais. Não abandonei os treinos que faço há mais de 30 anos com paradas ocasionais, mas os executo para ter prazer com minhas endorfinas liberadas. Não há mais como frear o envelhecimento e suas consequências no físico.

O corpitcho de 20 eu deixo em fotos para minhas filhas e netos um dia lembrarem da mãe/vó jovem. Em uma matéria na TV, vi uma mulher de 62 anos que chamou a curiosidade para o “corpão” que mantinha com aquela idade, malhando duas horas diárias numa academia. Quando a vi pesando tudo que comia em uma balança na mesa e calculando suas calorias, entendi a paranóia da ausência de frustração.

E já que este é um textão e duvido que chegou até aqui, mas para os que chegaram: como serão os inflados egos dos filhos desta geração? Novamente me reporto aos abastados. Também da reflexão de Marieta Severo reforço uma frase de Saramago: “As crianças crescem nas sombras”.



Hoje a criançada tá com tudo iluminado em uma tela de celular. Basta baixar um app e pronto! Satisfação virtual de lanchinhos a games e outros entretenimentos questionáveis. Entendo que crescer envolve o enfrentamento ” real ” de desafios buscando o aprendizado da vida e nesta caminhada a frustração faz parte dos nossos sentimentos. A frustração é a admissibilidade do limite. Pode ser um motor para ultrapassá-lo em algumas questões, mas pode ser também o sinal de bom senso: nem tudo iremos ultrapassar.

Temos limitações que devem ser respeitadas, principalmente as físicas que decorrem do processo de envelhecimento. Somos humanos, falíveis. Toda frustração acaba com entendimento. Mesmo que signifique perrengue. É do perrengue e dos caminhos que encaramos para superá-lo e vencê-lo, que extraímos ao longo de nossa existência nossa verdadeira beleza, que entendo, captará livremente quão belas imperfeições fazem parte de nossas vidas. (Texto dedicado a minhas filhas, Maria Eugênia R. Schaefer e Geórgia Schaefer.)

(Viviane Roussenq é jornalista com atuação em Santa Catarina)



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