Quem foi e o que fez o papa Francisco

Papa Francisco morte falava com pobres Misto Brasil
Papa Francisco durante as suas viagens falava com fieis/Arquivo/Vatican News
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Ele criticou repetidamente a globalização, e muitas vezes também o capitalismo. Fez seus discursos políticos mais fortes

Por Misto Brasil – DF

O papa Francisco abraçava as pessoas, ria. Quando viajava, andava em carros pequenos, ia para as reuniões a pé, sozinho, com uma velha pasta na mão. De vez em quando, telefonava para totais desconhecidos que estavam de luto ou desesperados, conversava com os surpresos interlocutores, oferecendo-lhes consolação.

Desde o início, o papa “do fim do mundo”, como se apresentou em sua primeira aparição, encerrava sua saudação dominical aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro dizendo: “Não se esqueçam de rezar por mim. Bom apetite!”

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Sua primeira viagem o levou ao sul da Itália. Ali, Francisco celebrou a missa, recordou os muitos refugiados que se afogaram na costa da ilha mediterrânea de Lampedusa, a caminho da Europa. “A cultura de afluência que nos faz pensar em nós mesmos nos torna insensíveis aos gritos dos outros”, disse, e lamentou – numa citação que marcou seu pontificado − a “globalização da indiferença” neste “mundo da globalização”.

Francisco criticou repetidamente a globalização, e muitas vezes também o capitalismo: “Criamos novos ídolos. A adoração do antigo Bezerro de Ouro […] encontrou uma forma nova e impiedosa no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano”, escreveu em novembro de 2013, em sua primeira carta didática.

Advertências ao mundo

Em seus primeiros anos, Francisco fez seus discursos políticos mais fortes, atuando como defensor dos pobres e do Sul global: em 2014, perante o Parlamento Europeu em Estrasburgo, em 2015 perante o Congresso dos Estados Unidos, em Washington, e as Nações Unidas, em Nova York. Ele falou de uma “Europa um tanto envelhecida e oprimida”, uma “cultura descartável” e um “consumismo desenfreado”. A Europa deveria envolver-se novamente em prol da paz e da dignidade humana de todos.

O papa também reclamou na ONU sobre a “cultura do descarte” que atinge mais duramente os mais pobres, e instou a comunidade internacional a implementar reformas rápidas e fazer mais na ajuda ao desenvolvimento e na proteção do clima. Mas também foi o chefe da Igreja em tempos em que se espalhavam o nacionalismo e a rejeição do multilateralismo e do diálogo, quando o populismo ganhava força na política mundial. Em geral, fazia suas advertências sorridente.

Talvez por razões políticas, muitos governantes queriam uma foto com o clérigo, mas ignoravam suas palavras. Francisco sentiu o mesmo com sua encíclica Laudato si, de 2015. Este grande ensinamento para a integridade da Criação parece uma acusação política − mas raramente foi escutado.

Visitas aos pobres

Entre suas dezenas de viagens ao exterior, as mais importantes foram para a Ásia, África e América Latina, e para tal também correu riscos pessoais. Como na visita a Bangui, na República Centro-Africana, em 2015, onde milícias cristãs e muçulmanas se combatiam.

Francisco sempre buscou a proximidade com os pobres, parava nas favelas, convidava os cidadãos. Na Europa, seus destinos ficavam mais nos limites do continente rico, como a Albânia ou a Romênia, por exemplo. China e Rússia permaneceram sendo países jamais visitados por um líder da Igreja Católica.

Porém o papa recebeu o presidente russo três vezes, em 2013, 2015 e 2019. Em 2016, conheceu em Havana o patriarca ortodoxo russo Cirilo. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022, matando milhares de civis, chamou líder ortodoxo de “clérigo do Estado”, mas ainda esperava conquistá-lo como aliado contra a guerra e o ódio.

Papa Francisco Vaticano Igreja Misto Brasília
Papa Francisco com jovens no acampamento Alpha/Arquivo/Divulgação/Vaticano

Excesso de expectativas não cumpridas

No âmbito da Igreja, o papa jesuíta era alvo de enormes expectativas, pois antes dele a liderança católica seguira por décadas um curso conservador e fortalecera a centralização. Muitas esperanças depositadas em Francisco foram frustradas, mas ao menos ele voltou a permitir o debate. Antes dele, os sínodos de duas semanas de duração no Vaticano eram em grande parte tediosas sessões de leitura de manuscritos prontos.

Com Francisco, houve debates abertos e polêmicos sobre temas como família (2014, 2015) e juventude (2018). O Sínodo para a Amazônia, de 2019, tornou-se uma denúncia de exploração da natureza e desrespeito aos povos indígenas. Seu grande projeto, no entanto, foi a consulta global sobre uma Igreja sinodal capaz de diálogo.

Quanto a mudanças na doutrina eclesiástica. Francisco falou com mulheres que se sentiam excluídas de sua Igreja, encontrou homossexuais que sofriam na instituição. Ele sempre se apresentou como um padre espiritual, o pastor supremo do mundo, e desempenhou esse papel de forma impressionante. Mas mudanças em tópicos como o celibato e a ordenação de mulheres nunca foram discutidas seriamente. Pelo menos o papel dos leigos foi fortalecido significativamente por Francisco. Isso também fez parte da grande reforma da Cúria, o aparato do Vaticano, que basicamente reorganizou o governo do papa.

Ao longo de seu pontificado, o argentino teve que se defrontar com casos de abuso sexual em grande parte da Igreja, e também com as panelinhas e intrigas do Vaticano. O que não ficou claro foi o que o próprio Francisco sabia dos abusos cometidos por clérigos em sua Argentina natal. Apesar de proclamar “tolerância zero” para abusos e seu encobrimento, e a investigação sistemática em várias dioceses ter revelado a culpa de bispos, o pontífice raramente decretou consequências contra os responsáveis.

Aproximação com judeus e muçulmanos

Um legado que certamente permanecerá, são suas relações com judeus e muçulmanos. Mesmo como papa, Francisco gostava de se apresentar como “irmão bispo”. De seu círculo de amigos íntimos, constava o rabino de Buenos Aires, e Francisco também conheceu representantes de outras religiões monoteístas, sendo o primeiro papa a visitar a Península Arábica, berço do Islã.

Na capital dos Emirados Árabes Unidos, assinou com lideranças muçulmanas e de outras Igrejas a histórica Declaração de Abu Dhabi, um documento que evoca a fraternidade humana. Em março de 2021, viajou para o Iraque e fez campanha pelo diálogo e fraternidade de religiões entre os xiitas. Quanto mais tempo estava no cargo, mais intensos se mostravam seus esforços para estabelecer contatos com o Islã.

A pandemia de covid-19 e as especulações sobre o fim do pontificado frearam suas ambições. Aos 84 anos, uma cirurgia intestinal o afastou do cargo por um tempo. A partir de 2022 ficaram visíveis seus problemas no joelho e dores intensas. Cada vez mais o pontífice cumpria os compromissos oficiais de cadeira de rodas, e teve que adiar uma viagem à África, com paradas no Congo e no Sudão do Sul, longamente planejada e muito importante para ele.

Quanto mais velho ele ficava e quanto mais perceptíveis se tornavam as consequências da pandemia, mais Francisco se tornava admoestador. Francisco sozinho na escura e chuvosa Praça de São Pedro, implorando a Deus diante do sofrimento global, antes da Páscoa de 2020: esta cena permanece uma das mais impressionantes de seu pontificado. (Relato elaborado pela Agência DW)

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