Entre o lucro e a solidão: a doença reborn

Bonecos hiperrealistas bebê reborn Misto Brasil
Há casos extremos sobre esse fenômeno que envolve os bebês hiperrealistas/Arquivo/Divulgação
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Em muitos casos, servem como ferramenta para lidar com perdas, como a morte de um filho ou a infertilidade

Por Isadora Lira – DF

Casos envolvendo adultos com bonecos hiper-realistas, os chamados bebês reborn, têm se tornado cada vez mais frequentes e, em alguns episódios, perturbadores.

Pessoas buscando atendimento médico para um boneco, disputas judiciais pela “guarda” dessas figuras e até dúvidas sobre sua inclusão como dependentes em planos de saúde e no Imposto de Renda levantam um debate necessário: onde termina a fantasia e começa o transtorno?

O que a sociedade é capaz de fazer para gerar lucro incessante?

Existem alguns questionamentos genuínos como: por que adultos estão cuidando de bonecos como se fossem filhos reais? Por que vídeos de “rotina materna” com brinquedos ganham milhões de visualizações?

E por que isso tudo está chegando ao Congresso Nacional, com propostas de leis para proibir o uso de bonecos em contextos de saúde pública? O que os bebês reborn revelam sobre a sociedade em que vivemos?

A resposta pode passar por duas frentes: a crise dos vínculos emocionais reais e a lógica digital que transforma qualquer fragilidade em produto. É nesse cruzamento que o fenômeno dos bebês reborn cresce.

Não é só um hobby excêntrico, tampouco um caso isolado de sofrimento. É o espelho de uma sociedade que, esgotada emocionalmente, começa a trocar afeto por simulação e transforma a solidão em conteúdo lucrativo.

Os bebês reborn surgiram no início dos anos 2000 como uma forma artística e, em alguns contextos, terapêutica. São bonecos criados com impressionante realismo: pele macia, olhos de vidro, cabelos implantados fio a fio.

Em muitos casos, servem como ferramenta para lidar com perdas, como a morte de um filho ou a infertilidade. Porém, essa função íntima e sensível se transformou em um espetáculo digital.

E esse é o ponto central: estamos diante de uma doença social monetizada. O que deveria ser tratado como expressão de vulnerabilidade psicológica ou escapismo afetivo virou negócio.

Um negócio que lucra com a fetichização da maternidade, da fragilidade e do afeto encenado. O fenômeno dos bebês reborn é o espelho de uma sociedade em exaustão emocional, conectada o tempo todo e desesperada por afeto, por audiência ou por renda.

É um sintoma da nossa era, que mistura fragilidade humana com lógica de mercado.

É sintomático que as pessoas encontrem nas simulações emocionais um caminho menos complexo do que construir relações reais. É mais fácil encenar a maternidade para uma câmera do que vivê-la com todas as suas exigências e limites.

Enquanto a sociedade continuar premiando o artificial em vez do autêntico, fenômenos como o dos bebês reborn serão cada vez mais normalizados.

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