Não há estado brasileiro livre da influência dos dois maiores grupos criminosos ou de múltiplas outras organizações criminosas
Por Misto Brasil – DF
Ao redor do Brasil e para além das fronteiras nacionais, 88 organizações criminosas realizam atividades ilícitas contínuas a fim de obter lucros, segundo relatório de Inteligência do Ministério de Justiça e Segurança Pública (MJSP).
Quase todas elas têm presença tanto nas ruas quanto em presídios, poder financeiro e estruturas hierárquicas.
Classificados nesta semana como organizações terroristas pelos Estados Unidos, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) são os dois maiores grupos criminosos do Brasil.
Leia – EUA definem CV e PCC como organizações terroristas
Não há estado brasileiro livre da influência do CV, do PCC ou de múltiplas outras organizações criminosas. Ao longo das últimas cinco décadas, elas se multiplicaram, ganharam capilaridade e forjaram alianças ou inimizades na disputa por território.
Hoje, o Nordeste é a região com o maior número de organizações criminosas conhecidas pelo MJSP — 46 foram mapeadas entre 2022 e 2024. Em seguida, aparecem as regiões Sul (24), Sudeste (18), Norte (14) e Centro-Oeste (10).
O crime organizado sobrevive sobretudo do tráfico de drogas, além do roubo de carga, latrocínio, fraude, extorsão, lavagem de dinheiro e controle de territórios e serviços.
Na Amazônia, PCC e CV estariam também ampliando seu envolvimento com o garimpo ilegal, incluindo em acampamentos dentro de terras indígenas.
Estruturadas em redes de facções, as organizações criminosas compartilham símbolos de pertencimento e, não raro, mantêm ideologias ou estatutos próprios.
Também antagonizam diretamente contra o poder público — com a não obediência das leis e ações violentas contra agentes do Estado —, organizam resgates ou fugas de presos e promovem rebeliões em prisões.

Após anos de expansão pelo território brasileiro, tanto CV quanto PCC têm membros espalhados em presídios de todos os estados, afirma o levantamento do governo federal, com exceção do Rio Grande do Sul.
Na terra gaúcha, predominam as organizações Bala na Cara, formada em 2005, e Os Manos, cujos primeiros sinais datam dos anos 1980.
As primeiras facções surgiram dentro dos presídios nos anos 1970. Divididos em grupos, os presos então reivindicavam melhores condições das autoridades — incluindo o fim da tortura e dos maus-tratos —, garantiam proteção aos seus aliados, criavam regras de convivência e profissionalizavam o que, até então, era a atividade criminosa de grupos de menor porte.
Em 1979, emergiu a Falange Vermelha, que daria origem ao Comando Vermelho, no antigo presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande.
O grupo se formou quando presos comuns e políticos, militantes de grupos armados contra a ditadura militar, passaram a conviver. Os anos seguintes seriam marcados pela ampliação do poder da então recém-nascida organização, movida pelo tráfico de cocaína.
Mais tarde, em 1993, nasceria o PCC na Casa de Custódia de Taubaté, em São Paulo — entre outros motivos, para evitar violências do Estado, tal como ocorrera no massacre do Carandiru, que deixara 111 mortos em 1992. Hoje, a maior organização criminosa do país conta com estimados 40 mil membros.
“Existia um discurso de organização e de proteção aos presos. Depois, esse discurso de proteção se estendeu até as periferias. E a proteção era contra a própria polícia”, explicou o cientista social Eduardo Armando Medina Dyna ao Jornal da Universidade Estadual Paulista (Unesp), sobre os primórdios do PCC.
Hoje inimigos — embora tenham sido aliados nos anos 2000 —, CV e PCC são as únicas organizações criminosas brasileiras que, no mapeamento do governo federal, têm influência no exterior, com destaque para a América do Sul. Dos outros 86 grupos, 72 atuam unicamente nos seus estados de origem, e 14 alcançam mais de um estado ou região dentro do Brasil.
De acordo com dados do Ministério Público de São Paulo obtidos em junho pelo portal g1, o PCC tem estimadamente mais de 2 mil membros em outros 28 países.
A maioria deles atuaria dentro de prisões com recrutamento de novos membros, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas e armas.
A organização manteria laços com cartéis sul-americanos e mexicanos com penetração no território americano, segundo reportagem do jornal O Globode 2025. (Texto da Agência DW)
















