Grupos da machosfera podem ter impacto significativo no cenário político brasileiro e que pautas conservadoras podem ganhar força
Por Hugo Bermeguy, Maria Paula Valtudes e Fernando Santos
A “machosfera” é um conjunto de grupos ultraconservadores que cresceu mais de 88% no Youtube Brasil desde 2021. Esses grupos pregam ódio às mulheres e defendem a redução de seus direitos e de sua condição humana.
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A psicóloga social Ana Weselovski classifica o movimento como um conjunto de grupos ultraconservadores que se baseiam em três pilares.
- “Ginocentrismo” – a ideia de que mulheres na verdade dominam a sociedade e que os homens são os oprimidos;
- Supremacia masculina – em que há uma hierarquia de gênero onde os homens são colocados em lugar de domínio;
- “Red pill” – termo tirado do filme “Matrix” que significa perceber que a realidade é dominada pelas mulheres e que esses grupos ultraconservadores são quem pregam a verdade.
Dentre os grupos da machosfera há os:
- MRA: Men’s Rights Activists, que pode ser traduzido como “ativistas pelos direitos dos homens”, são um grupo que acredita principalmente que os direitos das mulheres sufocam os direitos dos homens.
- MGTOW: Men Going Their Own Way, que pode ser traduzido como “homens seguindo o próprio caminho”, rejeitam o casamento por considerarem que isso os tornaria submissos às mulheres e possuem lemas individualistas de seguir apenas seus próprios ideais.
- Incel: Involuntary Celibates, que pode ser traduzido como “celibatários involuntários”. Grupos que defendem que a vida de um homem é determinada por sua aparência física e acusa as mulheres de os excluir da sociedade. Comumente relacionam a ideia de supremacia masculina com argumentos falaciosos sobre ciências biológicas.
Segundo Ana, esses grupos não se diferenciam por serem mais ou menos extremistas, e sim por serem mais ou menos explícitos.
“Alguns indivíduos da machosfera são apenas menos explícitos ao falar do que acreditam, principalmente se estiverem falando para um público diverso que não é composto apenas por red pills, mas ao fim sempre acabam desembocando em uma defesa da supremacia masculina.”
“Afetos de ódio”
Os grupos da machosfera, visam silenciar mulheres por meio de diversos mecanismos, dentre eles:
- Desumanização: “Depois de passar um bom tempo acompanhando o conteúdo que circula pela machosfera, entre os red pill, fica claro o quanto as mulheres não são vistas nem ouvidas como iguais, como seres humanos capazes das mesmas virtudes e dos mesmos vícios, falam das mulheres quase como se não fossem parte da mesma espécie”
- Infantilização: “elas são tratadas como incapazes e por isso deveriam ser controladas ou tuteladas”
- Vilanização: “Quando não são infantilizadas são representadas como seres malignos, manipuladores e perigosos e por isso, de novo, precisam ser controladas”.
Tipicamente uma pessoa não se une a esses grupos por uma questão lógica, Ana afirma que estes grupos se unem por afetos de ódio.
“Muitos desses homens não se sentem em nada poderosos, mas acreditam que deveriam se sentir; eles tomam esse lugar de poder e domínio nas relações sociais como se fosse um direito seu por natureza, e se não estão ocupando esse lugar é porque alguém mau os privou disso. E daí surge o ressentimento”.
Além disso, a psicóloga social aponta que os integrantes da machosfera têm grande dificuldade de ouvir um outro que não faça parte de seu grupo.
“Tudo o que vem de fora, que não é dito por um de seus líderes ou por alguém que faça parte da machosfera, é questionado e deslegitimado“.
A influência política
Entre 2018 e 2024, a NetLab UFRJ e o Ministério das Mulheres mapearam em conjunto o crescimento desses movimentos no YouTube Brasil.
A pesquisa aponta que houve um crescimento na disseminação desse tipo de conteúdo, sendo 88% do conteúdo publicado depois de 2021.
Ana Weselovski diz que grupos da machosfera podem ter impacto significativo no cenário político brasileiro e que pautas conservadoras podem ganhar força através desses movimentos masculinistas.
“Questionar o direito ao voto feminino não é novidade dentro da machosfera, mas até então isso não acontecia tão abertamente e publicamente como está acontecendo agora nos EUA”.
“Vejo com preocupação o quanto isso pode fazer com que os red pills brasileiros se sintam legitimados para fazer o mesmo”, destaca.
O combate aos movimentos da machosfera
Para conter o avanço de grupos que utilizam desses discursos misóginos, Ana alerta que é necessário ter cuidado com os jovens por serem mais propensos à serem influenciados por conteúdos da machosfera.
“A adolescência costuma ser um período conturbado, onde se sentir aceito e pertencente a um grupo é crucial para os jovens. Não podemos permitir que o único lugar onde venham a encontrar um senso de pertencimento seja em grupos misóginos.”
Além disso, na visão da pesquisadora, a PL 896/2023 que criminaliza a misoginia, aprovada pelo Senado Federal em março de 2026 e em análise na Câmara dos Deputados, pode ser uma medida essencial no combate à misoginia e uma barreira contra o argumento da “liberdade de expressão”, comumente usado pela machosfera para legitimar dizeres machistas.
“Nos últimos anos está em voga a defesa de uma ideia de liberdade de expressão irrestrita acima de qualquer coisa, também acredito ser importante termos liberdade de expressão, mas essa liberdade não pode estar acima da responsabilidade pelo que é dito. Não é aceitável fomentar o ódio e a discriminação publicamente sem que haja qualquer responsabilização por isso.”
(Agência de Notícias do CEUB, com supervisão de Vivaldo de Sousa)




















