As candidaturas femininas cresceram entre 2018 e 2022, mas a eleição de deputadas avançou em ritmo menor revelando obstáculos nos espaços de poder
Por Esther Santos, Giulia Moura e Nathaly Ferreira – DF
“Não há democracia sem mulheres no poder”. É isso que a doutora em Direito Constitucional Christine Peter, professora do Centro Universitário de Brasília (CEUB), acredita quando o assunto é a representatividade feminina nos espaços de poder.
Um dado muito conhecido é que as mulheres brasileiras são mais da metade da população do país (51,3%) e, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), também representam a maior parte do eleitorado (52,47%).
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A pergunta que fica é: se são a maioria, onde elas estão?

O que se tem visto no cenário político brasileira é que mais mulheres se candidatam, mas poucas conseguem chegar ao poder.
Dados do Portal da Classe Política, lançado em 16 de junho de 2026 pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT-ReDem), da Universidade Federal do Paraná, revelam um descompasso entre o crescimento das candidaturas femininas e a ocupação efetiva dos espaços de decisão política no Brasil.
Entre as eleições de 2018 e 2022, o número de mulheres candidatas à Câmara dos Deputados saltou de 2.413 para 3.334, um avanço de 38,17%.
No entanto, o número de deputadas federais eleitas passou de 77 para apenas 91, crescimento de 18,18% no mesmo período. A diferença de cerca de 20 pontos percentuais expõe uma contradição: embora as mulheres estejam cada vez mais dispostas a disputar cargos eletivos, as urnas ainda não refletem esse avanço na mesma proporção.
E o que podemos esperar para as eleições de 2026? E o que falta para que mais mulheres consigam ser eleitas?
Para a cientista política Isabela da Rocha, especialista em Relações Governamentais e Institucionais, o principal obstáculo para que as mulheres ocupem plenamente os espaços de poder é a própria estrutura política, construída historicamente sob uma lógica patriarcal.
Segundo ela, essa cultura associa o exercício do poder aos homens, criando barreiras não apenas para a eleição de mulheres, mas também para sua permanência na vida política.
Nesse contexto, a baixa representatividade feminina produz efeitos que vão além dos números. A ausência de mulheres nos espaços de decisão reduz a diversidade de perspectivas no processo legislativo e pode comprometer a formulação de políticas públicas que contemplem diferentes realidades sociais.
“Essa baixa presença feminina reduz um pouco a diversidade de perspectivas no processo legislativo hoje no nosso país. É por meio do processo legislativo que fazemos políticas públicas e promovemos mudanças”, comenta.
Segundo ela, as mulheres que estão na política fazem parte de um grupo sub-representado, e os números por si só já demonstram isso.
“As demandas dessas parlamentares e dessas mulheres na política tendem a receber menos atenção, a ser menos debatidas ou, quando são debatidas, não recebem a profundidade necessária”, afirma.
Além dos desafios para chegar aos cargos políticos, as mulheres enfrentam obstáculos que raramente aparecem com a mesma intensidade nas trajetórias masculinas.
Questões relacionadas à aparência, episódios de assédio, dupla ou tripla jornada de trabalho e a constante necessidade de provar sua competência fazem parte da realidade de muitas lideranças femininas.
Segundo Isabela da Rocha, deputadas da bancada feminina relatam ataques que são frequentemente direcionados à sua condição de mulher, e não apenas às suas posições políticas. Para compreender essa dinâmica, basta recordar o período em que Dilma Rousseff (PT) esteve na Presidência da República.
Em diversas ocasiões, diz Isabela, a aparência e características pessoais dela tornaram-se alvo de críticas e piadas, desviando a atenção do debate sobre suas decisões e propostas de governo.
As caricaturas e representações disseminadas nas redes sociais durante aquele período ilustram como, muitas vezes, mulheres na política são julgadas por aspectos individuais e superficiais, indicando um tratamento desigual em relação aos homens que ocupam os mesmos espaços de poder.
Patriarcado ainda dita as regras
Os dados indicam um aumento da participação feminina na política brasileira nas últimas décadas. No entanto, o crescimento da presença de mulheres em candidaturas e cargos eletivos levanta questionamentos sobre a efetividade dessa representatividade e os desafios que ainda persistem para a ocupação de espaços de poder.
Embora a Constituição Federal assegure que todos são iguais perante a lei, essa igualdade ainda não se reflete plenamente na composição das principais instâncias de decisão política do país.
Atualmente na política brasileira temos 91 deputadas federais (19%), em um total de 513 parlamentares eleitos; 16 senadoras (20%); e apenas cinco governadoras em exercício (18,52%).
Esse cenário mostra que o desafio não está apenas no acesso das mulheres à política, mas também na ampliação de sua participação e permanência em espaços historicamente dominados por homens.

Para Christine Peter, também pesquisadora em igualdade de gênero, a resposta está no patriarcado. O machismo e a misoginia são termos muito falados e conhecidos. Só que o patriarcado?
Ele não pode ficar de fora dessa conta. “É muito importante saber que o patriarcado não é como o machismo ou como a misoginia que são defeitos do sistema que a gente pune com leis mais severas que a gente coloca por detrás das grades, o patriarcado é um sistema sutil, um sistema social.”
O patriarcado representa um sistema social e cultural em que o poder e a autoridade se concentram e privilegiam os homens. Essa estrutura hierarquizada é secular e está enraizada na sociedade brasileira, influenciando comportamentos e perpetuando desigualdades.
Esse padrão também se reflete na política, visto que os espaços de poder foram historicamente pensados para serem ocupados por homens.
Apenas nos anos 2000, a primeira mulher tornou-se ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), com a posse de Ellen Gracie. Após 109 anos de existência do STF, a presença feminina chegou à Corte.
Além disso, somente em 2016, mais de 55 anos após a inauguração do Plenário do Senado, foram criados banheiros femininos, mesmo já havendo, naquele período, 12 senadoras em atuação. Ou seja, o patriarcado não pressupõe a participação das mulheres nesses espaços de poder, evidenciando como as instituições políticas ainda carregam marcas de uma estrutura historicamente excludente.
“Ninguém fala do patriarcado. Patriarcado é o sistema, é a cultura, é c
omo a gente acredita desde pequenininho, é como a gente acredita nas nossas escolas, nas nossas religiões, nas nossas famílias que realmente o espaço da mulher não é o espaço de decisão. Então realmente existe uma cultura que afasta mulheres desses espaços, isso é muito grave, patriarcado é a grande causa da igualdade de gênero não ser plena entre nós”, afirma Christine.
Constitucionalismo feminino
O constitucionalismo feminista surge para repensar o direito constitucional sob um enfoque de gênero. Ele nasce como um movimento acadêmico, com professoras de direito constitucional que se reuniram para dar visibilidade aos seus trabalhos.
O principal objetivo é questionar e transformar as leis e estruturas tradicionais que, muitas vezes, acabam reforçando as desigualdades entre homens e mulheres. Mas afinal, o que isso representa para o eleitorado feminino?
Na prática, o movimento propõe uma perspectiva inclusiva que busca dar voz e direitos a grupos historicamente marginalizados, como mulheres negras, indígenas, quilombolas, estrangeiras e povos tradicionais, que são frequentemente afetados pela discriminação em estruturas sociais conservadoras.
Ou seja, trata-se de um constitucionalismo inclusivo, que coloca mulheres e homens de todas as interseccionalidades nos espaços de poder de decisão, fala e visibilidade.
“O constitucionalismo feminista é o antídoto para a falta de representatividade das verdadeiras minorias”, pontua Christiane
No cenário brasileiro, um dos principais palcos dessa transformação é o STF. A atuação desse movimento junto à Corte é peça-chave para transformar a igualdade em realidade prática.
Isso acontece na medida em que o tribunal passa a incorporar a perspectiva de gênero em seus julgamentos, mudando os rumos da jurisprudência do país.
O Judiciário brasileiro foi impulsionado pela Constituição de 1988 a ocupar um espaço muito importante na democracia e nas pautas chamadas de contra majoritários.
Mas para que essa igualdade seja real, ela também precisa aparecer na quantidade de mulheres que se sentam no tribunal. Segunda mulher a fazer parte do STF e a presidi-lo, a ministra Cármen Lúcia resumiu bem esse desafio ao dizer, certa vez, que a verdadeira igualdade só vai existir quando todos os 11 lugares da Corte forem ocupados por mulheres.
Hoje, no entanto, a realidade está longe do ideal: Cármen Lúcia é a única mulher na atual composição do tribunal. Esse isolamento desperta um alerta sobre o futuro da representatividade na Corte, já que o risco de ela ser a última depende diretamente da vontade política do Poder Executivo, responsável por indicar as próximas magistradas.
Veja a entrevista completa com professora de direito constitucional Christine Peter
Marco importante das cotas
O Brasil lidera, entre os países da América Latina e da América do Norte, o número de cotas vigentes voltadas à inserção de mulheres nos espaços de poder, considerando o período entre 2000 e 2025. No entanto, apesar dos avanços legislativos, a evolução da representatividade feminina na política institucional ainda ocorre de forma lenta.

A Lei nº 9.100/95, sancionada e publicada em 29 de setembro de 1995, determinou que ao menos 20% das candidaturas apresentadas pelos partidos políticos fossem destinadas às mulheres.
Posteriormente, em 1997, a Lei nº 9.504 ampliou esse percentual para 30%, consolidando um marco importante para a ampliação da participação feminina na política brasileira. Entretanto, após três décadas da implementação das cotas de gênero, cabe questionar: essa medida tem se refletido, de fato, na ocupação dos cargos de poder?
A cientista política Isabela acredita que mesmo com o avanço as cotas não têm sido suficientes e efetivas para resultar de fato na participação política das mulheres: “Não são suficientes por si só, Elas só aumentaram a presença das mulheres nas disputas eleitorais mas não estão garantindo a igualdade de condições para as mulheres competirem e vencerem”.
A eleição de 2022 registrou o maior número de deputadas federais da história do Brasil, com 91 mulheres eleitas para a Câmara dos Deputados.
Em contrapartida, nas eleições de 1998, a primeira após a implementação da política de cotas, apenas 29 mulheres conquistaram cadeiras no mesmo cargo. Isso representa um aumento de 62 deputadas ao longo de aproximadamente três décadas.
Ainda assim, a disparidade de gênero permanece evidente: em 2022, 412 homens foram eleitos deputados federais, em um ambiente de 513 cadeiras, revelando que a presença feminina no Legislativo continua significativamente inferior à masculina.

Candidaturas laranjas
A presença feminina no Legislativo continua significativamente inferior à masculina, um cenário que é agravado pelas chamadas candidaturas laranjas que servem, na maioria das vezes, como meio para desviar recursos do Fundo Eleitoral.
São candidatos que entram na disputa eleitoral sem chances reais ou intenção verdadeira de vitória, que representam as candidaturas de fachada.
O TSE prevê, na Lei n° 9.504/97, sancionada em setembro de 1997, a exigência de que os partidos preencham a cota mínima de 30% de mulheres dentre os integrantes. Diante desse cenário, as candidaturas laranjas são usadas para burlar a cota de gênero.
Os partidos políticos usam as candidaturas femininas falsas apenas para cumprir as exigências da lei eleitoral.
Christine Peter afirma que os lugares importantes de poder não são ocupados por mulheres e, quando ocupam, são cruelmente excluídas dos espaços fundamentais de decisão.
“Para a mulher, primeiro tem que conseguir entrar no partido político e ter igualdade de condições. As direções de partido político não são espaços para mulheres.
Elas são muito estranhadas e violentadas quando chegam aos espaços de diretoria de partido. Se não estão na diretoria de partidos, elas consequentemente não conseguem as melhores condições de concorrer com a igualdade de chances nas campanhas”.
Mas os desafios não param na entrada dos partidos, eles continuam depois da eleição. A cientista política Isabela da Rocha destaca que as mulheres não pensam todas iguais: elas carregam visões de mundo, religiões e ideologias bem distintas.
“Eleger mais mulheres não significa necessariamente ampliar determinadas pautas”, pontua. Na sua visão, essa falta de consenso divide a força política necessária para enfrentar desigualdades históricas. Uma divergência que, segundo ela, é natural da nossa democracia.
Possíveis mudanças
Se o patriarcado é um sistema construído e mantido ao longo de séculos, sua transformação também depende de mudanças coletivas e estruturais.
Nesse sentido, especialistas defendem que homens e mulheres precisam reconhecer a existência dessas desigualdades para que elas possam ser combatidas de forma efetiva.
Entre as principais soluções apontadas estão a conscientização sobre preconceitos ainda presentes no cotidiano e a desconstrução de padrões sociais que associam poder, liderança e autoridade exclusivamente aos homens. Trata-se de um processo gradual, que exige mudanças culturais profundas.
A professora de Direito Constitucional, como prefere ser identificada, afirma que, por se tratar de um problema estrutural, a resposta também precisa ser cultural.
Para ela, é necessário construir uma sociedade antipatriarcal. “Eu todos os dias tenho que arrancar um pouquinho de patriarcado de mim”, revela.
Embora demonstre satisfação com o aumento da consciência política e social entre mulheres e meninas, a professora afirma estar preocupada com parte da nova geração de homens. Segundo ela, essa diferença evidencia como a desigualdade de gênero continua sendo reproduzida em diversos espaços de socialização.
(Agência de Notícias do CEUB com a supervisão de Vivaldo de Sousa)



















