O conhecimento especializado passou a estar acompanhado de protocolos, equipamentos, formação profissional e tecnologias
Por Luiz Bandeira da Rocha Filho – DF
“O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio”. Otto Lara Resende
Para aqueles que, em algum momento, trafegaram por um Brasil eminentemente rural, talvez seja possível, pelo testemunho ocular, perceber quanto a sociedade brasileira se transformou pela incorporação da tecnologia, pela ampliação dos serviços públicos e pela mudança dos modos de viver, trabalhar e aprender.
Houve um tempo em que o parto natural era efetivamente natural.
Quando muito, era assistido por uma parteira. Uma mulher que, muitas vezes sem formação acadêmica, desenvolvia habilidades pela experiência, pela observação e pela necessidade objetiva. Não havia alternativa. A assistência médica não estava ao alcance de todos.
Não se pretende aqui estabelecer uma estatística sobre quantos partos foram bem-sucedidos ou quantas mães e crianças sobreviveram às circunstâncias adversas. A imagem interessa por outra razão: quando o conhecimento especializado não está disponível, a sociedade cria meios para que a vida continue.
Na educação rural, durante muito tempo, algo semelhante aconteceu.
A professora regente precisava ensinar aquilo que sabia. Conhecia as letras, lia, escrevia e, com a prática cotidiana, desenvolvia estratégias para alfabetizar suas crianças. Seu conhecimento era, muitas vezes, construído pela experiência, pela observação e pela necessidade.
Ela fazia o possível com os instrumentos de que dispunha.
Hoje, entretanto, o Brasil é outro.
O país tornou-se predominantemente urbano. A assistência médica avançou e se interiorizou. A parteira, embora possa permanecer como referência histórica e cultural, deixou de constituir a resposta ordinária para o atendimento obstétrico. O conhecimento especializado passou a estar acompanhado de protocolos, equipamentos, formação profissional e tecnologias capazes de ampliar a segurança e a qualidade do atendimento.
Na educação, ocorreu processo semelhante.
O desenvolvimento das ciências pedagógicas trouxe especializações, metodologias, materiais didáticos, tecnologias educacionais e professores com diferentes campos de formação. A figura do professor regente passou a conviver com a do professor especialista.
Mas há uma pergunta que permanece atual:
O que fazer quando o conhecimento especializado ainda não chegou onde a criança está?
Essa pergunta é particularmente relevante quando se trata da Língua Inglesa.
Não basta reconhecer que o inglês é importante. É preciso perguntar como fazê-lo chegar às crianças dos diferentes Brasis: o urbano, o semiurbano e o rural; às escolas que dispõem de professores especialistas e, sobretudo, àquelas que não dispõem deles em quantidade suficiente.
A resposta talvez não esteja em simplesmente reproduzir o modelo tradicional de ensino de inglês. Tampouco está em exigir da professora regente que se transforme, de uma hora para outra, em especialista na língua inglesa.
A aprendizagem de uma língua estrangeira começa por uma questão que parece elementar, mas que é decisiva: como aquilo que está escrito deve ser compreendido e pronunciado?
Na língua portuguesa, a criança percorre progressivamente o caminho entre o grafema e o fonema. Aprende que aquilo que vê escrito possui correspondência sonora e que essa relação pode ser decodificada, compreendida e utilizada para ler novas palavras.
Na língua inglesa, essa relação é mais complexa.
A escrita nem sempre oferece ao aprendiz brasileiro uma correspondência intuitiva entre o que está grafado e aquilo que deve ser pronunciado. O aluno pode reconhecer a palavra visualmente sem, contudo, possuir os elementos necessários para decodificá-la foneticamente.
É justamente nesse ponto que a Tabelinha do Inglês pretende atuar: como instrumento de mediação entre aquilo que o aluno já conhece — a lógica de representação sonora de sua língua materna — e as particularidades da língua inglesa.
Sua proposta não é simplesmente ensinar listas de palavras.
É oferecer ao professor e ao aluno um referencial organizado para perceber, comparar e compreender relações entre grafemas e fonemas, utilizando a métrica da linguagem como elemento orientador da aprendizagem.
Em outras palavras, procura-se tornar visível aquilo que, tradicionalmente, permanece invisível.
É uma mudança importante de perspectiva.
Não se parte necessariamente da palavra estrangeira pronta. Parte-se da possibilidade de compreendê-la.
Se a ausência de professores habilitados em Língua Inglesa constitui uma barreira para a universalização do aprendizado, uma política pública não precisa necessariamente escolher entre duas alternativas extremas: ou contratar especialistas em número suficiente, ou deixar de ensinar.
Existe uma terceira possibilidade: capacitar o professor regente para realizar uma mediação pedagógica estruturada, utilizando uma metodologia e materiais concebidos para esse propósito.

A capacitação docente, nesse contexto, não pretende substituir a formação universitária do professor de Língua Inglesa. Seu propósito é diferente.
Pretende criar condições para que o professor regente possa conduzir uma primeira etapa estruturante do aprendizado, especialmente aquela relacionada à alfabetização, ao reconhecimento fonético e à compreensão das relações entre escrita e som.
É a transferência organizada de uma ferramenta de conhecimento para quem está cotidianamente ao lado da criança.
A professora regente não precisa ser transformada em outra profissional. Precisa receber instrumentos que ampliem aquilo que já sabe fazer: ensinar.
E aqui está a diferença fundamental entre improvisação e método.
A antiga parteira fazia o parto porque não havia alternativa.
A professora rural ensinava porque a criança estava ali e alguém precisava ensiná-la.
Hoje, não precisamos voltar ao passado. Podemos aprender com ele.
Podemos aproveitar a proximidade, a experiência e o vínculo do professor regente com seus alunos e acrescentar a eles aquilo que a ciência, a metodologia e a tecnologia permitem oferecer. Levar o inglês onde o especialista ainda não chegou.
A grande questão, portanto, não é simplesmente formar mais professores especialistas — embora isso continue sendo necessário. A questão é também como fazer o conhecimento chegar imediatamente às crianças que não podem esperar pela expansão dessa formação.
É nesse espaço que a capacitação docente assume dimensão estratégica.
Uma professora regente, devidamente capacitada e apoiada por uma metodologia estruturada, pode tornar-se uma ponte entre o aluno e o primeiro contato sistematizado com a língua inglesa.
A Tabelinha do Inglês pode constituir, nesse processo, um instrumento de mediação fonológica capaz de organizar a percepção da relação entre grafema e fonema e favorecer a construção progressiva da autonomia do aprendiz.
O aluno começa a compreender que a palavra escrita não é um desenho indecifrável.
Ela possui estrutura.
Possui regularidades.
Possui sons.
E pode ser decodificada.
À medida que passa a reconhecer padrões e a pronunciar palavras com maior segurança, cria condições para ampliar progressivamente seu repertório lexical e desenvolver habilidades de escuta, oralidade, leitura e escrita.
O vocabulário deixa, então, de ser apenas algo a ser memorizado e passa a ser algo que pode ser descoberto, reconhecido e incorporado de maneira autônoma.
Uma metodologia de aprendizagem só alcança verdadeira dimensão social quando consegue ultrapassar os limites da escola que possui melhores condições e chegar, também, àquela que enfrenta maiores restrições.
O desafio não é apenas produzir conhecimento. É escalá-lo. Possibilitar escalabilidade.
É fazer com que uma solução concebida em determinado ambiente possa ser apropriada por diferentes redes de ensino, por professores com diferentes trajetórias e por alunos que vivem realidades distintas.
A Tabelinha do Inglês, associada a uma capacitação docente estruturada, pode funcionar justamente como essa ponte: aproximar o conhecimento específico da Língua Inglesa da professora que está na sala de aula e, por meio dela, da criança que precisa aprender.
Não se trata de diminuir a importância do professor especialista.
Ao contrário.
Trata-se de reconhecer sua importância e, simultaneamente, enfrentar uma realidade concreta: nem toda criança brasileira está onde o especialista já chegou.
A parteira não representava o ideal da assistência médica. Representava a resposta possível quando o conhecimento especializado estava distante.
O professor regente, por sua vez, não precisa ocupar o lugar do professor especialista em Língua Inglesa.
Mas pode ser o agente que faz nascer a primeira compreensão.
O primeiro som reconhecido.
A primeira palavra pronunciada.
A primeira relação estabelecida entre aquilo que os olhos veem e aquilo que a boca pronuncia.
O primeiro passo para que o aluno perceba que uma língua estrangeira não é um território inacessível.
Aprender é também nascer para uma nova compreensão.
E, para muitas crianças brasileiras, aprender inglês poderá significar justamente isso: nascer para um novo universo linguístico sem precisar esperar que todas as condições ideais estejam previamente disponíveis.
A Tabelinha do Inglês, quando inserida em uma proposta estruturada de capacitação docente, representa uma tentativa de transformar essa possibilidade em realidade.
Porque a grande questão da educação pública talvez não seja apenas perguntar quem pode ensinar.
É perguntar:
Como fazer o conhecimento chegar a todos enquanto ainda construímos as condições para que todos tenham acesso ao especialista?
Entre a ausência e a presença do conhecimento, existe a mediação.
Entre o saber especializado e a sala de aula, existe o professor.
E entre a palavra escrita e a palavra pronunciada, pode existir uma ferramenta capaz de tornar compreensível aquilo que antes parecia impossível.
Talvez seja esse o verdadeiro parto do aprender: fazer nascer, onde antes parecia não haver condições, a possibilidade concreta de compreender e não havia o caminho da mediação, de modo que a “Tabelinha do Inglês” é o componente para que o conhecimento especializado encontra a sala de aula.
(Luiz Bandeira da Rocha Filho, economista,foi secretário geral e ministro do Ministério da Educação)



















