Com sua natureza mais estável, esses ativos está atraindo a atenção dos usuários, que os usam como um substituto para o dinheiro
Por Charles Machado – SC
Nada como uma grande oportunidade para que antigos desafetos se transformem em grandes “amigos”, essa é exatamente a relação entre bancos, big techs e os criptoativos.
No início das criptomoedas, os bancos criavam dificuldades gigantescas para que as corretoras pudessem operar, realizando inclusive o fechamento de contas de muitas delas.
Porém, nos últimos anos o jogo mudou, e as instituições financeiras temem a concorrência de empresas de criptomoedas em sistemas de pagamento e recebimento de depósitos. E claro com o cheiro do lucro os grandes bancos já identificaram o tamanho desse mercado.
Vistas como uma ponte entre criptoativos e moedas fiduciárias, na medida em que o seu valor está atrelado a um ativo de reserva, como o dólar ou o euro, uma espécie de oásis no Velho Oeste as stablecoins ganharam tamanho e peso.
Com sua natureza mais estável, esses ativos está atraindo a atenção dos usuários, que os usam como um substituto para o dinheiro no mundo das criptomoedas: uma reserva de valor para escapar do risco, uma maneira de comprar e vender outros tokens em uma exchange ou como meio de pagamento.
Apenas nesse ano, o mercado de stablecoin viu seu volume de operação aumentar em quase 90%, atingindo cerca de US$ 247 bilhões, e fazendo com que grandes players não queiram ficar de fora desta festa, trabalhando inclusive na possibilidade de juntos (JP Morgan Chase, Bank of America, Citigroup, Wells Fargo e outros grandes bancos comerciais) possam emitir stablecoins conjuntamente, como informou uma reportagem do Financial no mês de abril.
A recente ascensão desses ativos e o avançar galopante da regulamentação do uso de criptoativos nos EUA, devem impulsionar uma adoção generalizada de stablecoins, até agora emitidas apenas por empresas de criptomoedas.
Segundo uma análise do Bank of America (BofA) a crescente adoção desses ativos representa “um risco potencial de longo prazo para a rentabilidade econômica dos depósitos bancários”.
Segundo especialistas, os riscos residem no fato de que a criação de valor futuro atrelado a depósitos e pagamentos ocorra fora do setor bancário, ou seja, que as stablecoins comecem a capturar funções que até agora eram exclusivas dos bancos, como a gestão de pagamentos e transferências, ou mesmo a canalização de poupança.
O que são stablecoins
De forma didática, lembramos que as stablecoins são usadas como reservas de valor ou para comprar outros tokens: um usuário deposita dólares (ou euros) em um emissor desses ativos, que por sua vez entrega os tokens.
A qualquer momento, o investidor pode recuperar seus fundos, mas, enquanto isso, o emissor pode usar esses dólares (ou euros). Na maioria dos casos, eles são investidos em ativos líquidos de curto prazo, denominados em dólares, como títulos do Tesouro.
Mas as stablecoins também são implementadas como método de pagamento, especialmente em países com moeda fraca e alta inflação.
Acredita-se que, à medida que as stablecoins e o blockchain são integrados ao sistema financeiro, os bancos e operadores de infraestrutura de pagamento, como Visa, Mastercard, PayPal podem ver suas fontes de receita derreterem, especialmente em áreas como remessas internacionais, na medida em que as stablecoins realizam essas operações de forma quase que instantânea, e com custos bem mais baixos. Atualmente estima-se que mais de 30 milhões de transações são processadas mensalmente em stablecoins, o que é só o início.
Como é sabido, para um banco, o cartão é um produto de pagamento com margens reguladas e dependência de terceiros. Já a stablecoin é um passivo líquido, gerando margem financeira e também permitindo 24 horas por dia, sete dias por semana.
Para efeitos de comparação vejamos, o modelo da Theter que, com apenas 200 funcionários, gera os mesmos lucros que o Goldman Sachs.
As stablecoins são criptoativos desenvolvidos para manter um valor estável, geralmente pareado a uma moeda fiduciária como o dólar. Ao contrário de ativos digitais voláteis como bitcoin ou ether, o objetivo principal das stablecoins é oferecer previsibilidade de preço, servindo como um meio de troca mais confiável dentro do universo cripto.
Dessa maneira elas são utilizadas para facilitar transações, proteger investidores da volatilidade e permitir operações mais estáveis em plataformas de finanças descentralizadas (DeFi), como empréstimos, trocas e aplicações com rendimento.
Todo mundo quer entrar no negócio
A recente chegada de grandes empresas de tecnologia em stablecoins começou a disparar alarmes sobre a privacidade do usuário, pois o acesso a informações detalhadas sobre as transações de seus clientes aumentaria sua capacidade de monetizar dados pessoais privados.
O mercado vive uma febre por criptomoedas estáveis, um substituto para o dinheiro no mundo criptográfico que funciona como um refúgio para escapar do risco ou como meio de pagamento.
E agora players de todos os tipos querem entrar no negócio: de bancos a grandes empresas de tecnologia, incluindo empresas especializadas.
No entanto, outros temores surgem, como a violação da privacidade dos usuários, principalmente diante da entrada de empresas de tecnologia, que poderiam oferecer esses ativos em pé de igualdade com os bancos tradicionais.
Apple, X, Airbnb e Google, de fato, estão conversando com algumas empresas de criptomoedas para integrar stablecoins em seus negócios, Amazon e Walmart, e pensam em emitir suas próprias stablecoins.
As redes sociais também não ficam de fora. O X de Elon Musk está avaliando a possibilidade de integrar uma stablecoin em seu novo aplicativo de pagamentos chamado X Money, que será lançado ainda este ano, de acordo com a empresa. A Meta também está estudando como incorporá-los em seus negócios.
A legislação em fase de aprovação nos EUA, conhecidas como Genius Act e o Stable Act, já trazem consigo, algumas restrições às empresas que podem emitir esses ativos, mas nenhuma impede estritamente uma grande empresa de tecnologia de fazê-lo.
O que faz acender a luz amarela, na proteção da nossa privacidade, e a entrada dessas big tech como todo o seu arsenal de informações sobre nossos hábitos é algo pra lá de temerário.
O perfil e a soma dos dados pessoais que podem ser mantidos anteriormente, juntamente com as próprias transações financeiras e qualquer informação que possa ser inferida, permitindo maior conhecimento e impacto nas próprias pessoas, o que só acelerar a inequívoca conclusão de que as big techs são os novos barões da economia mundial.















