A lista das intervenções diretas dos Estados Unidos é longa e muitas outras foram sutis implementadas ao longo de décadas
Por Marcelo Rech – DF
Historicamente, a América Latina sofre com a ingerência indevida dos EUA em seus processos eleitorais. Em 1903, Washington deu apoio direto à separação do Panamá da Colômbia para garantir o controle e a construção do Canal do Panamá, que administrou até 31 de dezembro de 1999, e sob o qual continua exercendo forte influência.
Depois, vieram as intervenções militares no Haiti (1915–1934), República Dominicana (1916-1924) e Nicarágua (1912–1933), com a repressão de rebeldes em defesa dos governos aliados ali instalados. À época da Guerra Fria, o script não mudou.
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Na Guatemala (1954), a CIA financiou e treinou mercenários e derrubou o presidente Jacobo Árbenz Guzmán; em Cuba (1961), a invasão frustrada na Baía dos Porcos, foi executada por exilados cubanos financiados pelos EUA, para derrubar a ditadura de Fidel Castro, que ainda engatinhava.
Tivemos a ingerência direta no Brasil (1964), para frear o governo de João Goulart e suas reformas; no Chile (1973), com a derrubada de Allende e o golpe de Pinochet; e não menos importante, a Operação Condor (1970–1980), um programa coordenado de ditaduras sul-americanas na Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai (membros fundadores), seguidos mais tarde por Brasil, Equador e Peru, de perseguição e eliminação de opositores políticos.
Isso, sem contar a intervenção na Venezuela com a derrubada de Nicolás Maduro, em janeiro, que, por outro lado, manteve o chavismo no poder.
A lista é longa e muitas outras intervenções sutis foram implementadas ao longo de décadas. Os interesses americanos são levados muito à sério e, na lógica da Casa Branca, essas ações não são condenáveis, pois serviam a um bem maior, claro.
Mas, o mundo mudou e os EUA também. As intervenções deixaram os marines de lado e passaram a ser muito mais conceituais. Por meio de agências de cooperação como a USAID, Washington continuou intervindo e direcionando os países da região para a sua órbita e dos seus interesses e valores.
Com o segundo mandato de Donald Trump, no entanto, mais que mudanças, tivemos transformações. Por exemplo, 83% dos contratos da USAID — cerca de 5.200 programas avaliados em dezenas de bilhões de dólares — foram cancelados. Para a direita regional, Brasil incluído, a USAID usava dinheiro do contribuinte para eleger governos de esquerda, alinhados, vejam só, com os democratas.
Coincidência ou não, desde então, nenhum candidato de esquerda venceu uma eleição presidencial na América Latina. Seis países — Bolívia, Chile, Honduras, Costa Rica, Peru e Colômbia — viram uma série de vitórias de direita ou centro-direita entre 2025 e junho de 2026.
Coincidência? Talvez sim, talvez não.
O fato objetivo é que a esquerda regride e em lugar de refletir sobre seus fracassos, prefere etiquetar os oponentes como se as pessoas fossem burras o bastante para ignorar os fatos.
A América Latina continua sendo a região mais desigual do planeta, mas a esquerda prefere a retórica da região de paz e cooperação, mesmo com o triunfo absoluto do crime organizado.

















