Uma criança não mede o amor pelo tempo no relógio, mas pela forma como é vista, ouvida e acolhida e a tecnologia não é problema
Por Daniella Starfield – SP
Vivemos numa era em que a tecnologia está presente em praticamente todos os momentos do cotidiano. As telas fazem parte do trabalho, da escola e do lazer. Esta realidade trouxe benefícios importantes, como o acesso rápido à informação e novas formas de comunicação.
No entanto, trouxe também um desafio silencioso: a diminuição da qualidade da presença entre adultos e crianças.
Falar de tempo de qualidade não é falar de quantidade de horas passadas em conjunto. É falar de disponibilidade emocional. Uma criança não mede o amor pelo tempo no relógio, mas pela forma como é vista, ouvida e acolhida.
Na prática, tempo de qualidade acontece nos momentos simples do dia a dia. Uma conversa durante o jantar, uma história antes de dormir, uma brincadeira rápida na sala ou um passeio sem pressa.
Estes pequenos gestos têm um impacto profundo no desenvolvimento emocional da criança, porque transmitem confiança, autoestima, segurança e pertencimento.
As crianças aprendem sobretudo através do exemplo. Quando observam adultos constantemente ligados ao celular, entendem que essa é a forma natural de estar no mundo. Quando, pelo contrário, veem adultos guardando o celular para ouvir, conversar ou brincar, aprendem que a presença humana tem valor.
A tecnologia não é o problema. Ela é uma ferramenta útil e, muitas vezes, necessária. O desafio está no equilíbrio. O risco surge quando o digital começa a ocupar o espaço do vínculo, da escuta e da convivência familiar.
Além disso, quando o digital ocupa todos os momentos livres, até os pequenos instantes de espera deixam de existir.
O tédio faz parte do desenvolvimento infantil, porque abrem espaço para a criatividade, a imaginação e a autonomia emocional. Nesses momentos, a criança aprende a criar, a inventar e a lidar consigo mesma.
O que transforma a relação entre adultos e crianças são pequenas decisões conscientes: desligar as telas durante as refeições, estar disponível por alguns minutos sem distrações, ou simplesmente olhar e ouvir com atenção.
Ao longo da vida, as crianças não se lembrarão da quantidade de tempo passado em frente a um dispositivo, mas sim da qualidade dos momentos vividos com as pessoas que mais amam. Lembrarão-se das conversas, das brincadeiras, do afeto e da sensação de serem importantes para alguém.
Oferecer tempo de qualidade é, no fundo, um ato simples, mas profundamente transformador: é escolher estar presente.
(Daniella Starfiel é escritora, letrista, empreendedora criativa e autora do livro infantil “O Grande Dia da Escolha”)













