A política vai ao supermercado

Compartilhe:

Nos anos sessenta, Norman Mailer, um dos papas do Novo Jornalismo, publicou uma série de artigos retratando as convenções partidárias dos Democratas e dos Republicanos nos Estados Unidos. O material foi compilado como “O Super-homem vai ao supermercado” – mesmo título do texto sobre a convenção dos Democratas que lançou a candidatura presidencial de John Kennedy.

Trata-se de um trabalho precioso e delicioso, acessível a todos aqueles que se interessam por política e textos de qualidade. Os artigos mostram em profundidade comportamento dos atores envolvidos em momentos chave do processo decisório das agremiações.

Façamos um rápido corte para os meses de julho e agosto de 2018 no Brasil. Entre 20 de julho e 5 de agosto, os partidos definirão suas candidaturas, alianças e coligações. Guardadas as muitas diferenças entre Brasil e Estados Unidos, é impossível não ter em mente o trabalho de Mailer.

Alguns posicionamentos já estão consolidados, mas há muita especulação e conversas em curso. A incerteza segue sendo a tônica.

Primeiro colocado nas pesquisas quando o nome de Lula não é apresentado, o deputado Jair Bolsonaro dá alguns sinais de fadiga. Estacionado na faixa dos 20% de intenções de voto, ele sofreu dois reveses importantes – não terá o apoio do PR e a alternativa para ocupar a vaga de vice, o general reformado Augusto Heleno, foi desautorizado por seu partido, o PRP. O quadro atual mostra as limitações e fraquezas do deputado, bastante fragilizado nesse momento.

Ciro Gomes também vive um momento turbulento. O neopedetista ainda patina em suas conversas com o Centrão (DEM, PP, Solidariedade e PR) e, dias atrás, envolveu-se em bate-boca público com integrantes do MP-SP. O lado mercurial do candidato voltou em grande estilo. Igualmente a carta que enviou para Boeing e Embraer, questionando a operação entre as duas empresas, não caiu bem.

Quem pode comemorar é Geraldo Alckmin. O tucano conseguiu o apoio do PTB e do PSD. O movimento dos dois partidos pode estimular o Centrão, ainda dividido entre o PSDB e Ciro Gomes, a ingressar na chapa. Além disso, Alckmin ganha importante tempo de propaganda e afasta o “fantasma” João Dória.

No front estritamente governista, nada de novo. O ex-ministro Henrique Meirelles patina em sua pré-candidatura e é alvo de duras críticas do próprio MDB. A mais recente partiu de Renan Calheiros, que questiona a opção do partido por Meirelles.

Por fim, o PT insiste em Lula, apesar da Justiça. Fernando Haddad segue como o principal “plano B” do partido, mas o nome de Jaques Wagner retornou à bolsa de apostas. A novela prosseguirá por mais um bom tempo.

A política brasileira vai ao supermercado. No caso, um supermercado composto de ideias, propostas, projetos, afinidades, tempo de propaganda e estrutura partidária. Tudo serve para balizar as decisões e opções dos atores envolvidos no processo.

PARTICIPAÇÃO DO LEITOR

Participe desta discussão

Compartilhe sua opinião sobre este assunto. As participações passam por análise editorial antes de qualquer utilização no site.

Seu e-mail não será publicado.
Entre 20 e 3.000 caracteres.

Assuntos Relacionados

Siga o Misto Brasil

Acompanhe em todas as redes

Notícias, vídeos e destaques em tempo real. Escolha sua rede favorita.

Dica: acompanhe também pelo WhatsApp para receber atualizações rápidas.

Brasília e Entorno do DF

Oportunidades