Lobos uivam ao luar

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A declaração do Ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, rapidamente prestada, de que o atentado de Juiz de Fora era o trabalho de um lobo solitário, afastando quaisquer outras teorias, que desde logo repeliu  como conspiratórias, traz em si mesma uma curiosa contradição, pois é ela própria a teoria de que os lobos se determinam, fixam objetivos, elaboram planos e consumam magnicídios, ou tentativas disso, de forma absolutamente solitária, sem ajuda, conselho, troca de ideias ou cumplicidade de quem quer que seja. 

É uma posição preguiçosa, já que não poderíamos supor que Jungmann estivesse dando o primeiro passo para abafar o ilícito ou conter a investigação. 

Mas seguindo essa posição, teríamos que admitir, no primeiríssimo momento, que também os atentados contra John Kennedy, Bob Kennedy, Martin Luther King e João Paulo II, foram, como pretende o controvertido relatório da Comissão Warren sobre o assassinato do 35˚ Presidente dos Estados Unidos da América, obra de lobos especializados em intervir no curso da história e do destino, em atendimento a interesses contrariados sempre vistos como inocentes. 

No Brasil, teríamos que admitir como natural a morte, no espaço de sete meses, de três prováveis candidatos presidenciais contra o regime militar reunidos na chamada Frente Ampla, quais sejam, Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda e João Goulart. 

A possibilidade de isso acontecer por acaso seria contestada até por um especialista em calcular número provável de vencedores na loteria esportiva. 

No caso Bolsonaro, causa estranheza que o lobo seja de esquerda e atente contra um candidato da direita, depois de passagem pelo notoriamente “moderado” PSOL, onde certamente pode ter auferido os benefícios da influência pacificadora da ex-integrante do Senado, Heloisa Helena, e talvez feito mestrado com João Pedro Stédile, com o agitador Bruno Maranhão, que invadiu e depredou o Congresso Nacional, além de inspirar-se em Manuela D’Ávila, que faria o camarada Stalin ruborizar-se de preocupação. 

Surgem agora quatro advogados que não revelam quem os contratou, informação chave para os investigadores, para apurar se o benfeitor post facto também teria alimentado a fobia do lobo antes da facada. 

Como o Ministro Jungmann não levou em conta aspectos de psiquiatria forense, deixou de considerar que lobos se influenciam não apenas pela manipulação de um grupo, mas também pela indução coletiva em determinado momento da vida nacional. 

Como exemplo lembre-se Pinheiro Machado, a eminência parda que comandava a República Velha fazendo presidentes e mandando neles, e contra quem a mídia fez uma virulenta campanha dizendo sem meias palavras que era preciso u’a mão que libertasse o Brasil daquela tirania. 

Atendendo ao que julgou um reclamo nacional que de resto o convocava a ele, pessoalmente, para tal libertação, o Magnicida Manso de Paiva, que é o título do livro que narra sua saga, dirigiu-se ao bilhar frequentado pelo caudilho, apunhalando-o fatalmente pelas costas. 

O clima no Brasil de hoje é o de uma Lua Vermelha, em que há uma ira que ultrapassa o governo e as instituições para constituir-se em rancor de grupo contra grupo e até de pessoas contra todas as outras.

Estamos vivendo uma versão trágica da tirada humorística de Nelson Rodrigues, de que o Maracanã vaia até minuto de silêncio.

Nessa Casa Dividida, desgraça contra a qual alertaram Abraham Lincoln e Winston Churchill, têm tido papel condenável número enorme de usuários das redes sociais, que deram ao rancor e à irresponsabilidade um alcance eletrônico jamais pressentido, derrubando os obstáculos naturais que antes impediam a disseminação virulenta do ódio. 

O lobo de Jungmann pode portanto ter sido manipulado pelo coletivo de iras e ressentimentos. 

Mas não se pode desprezar a conclusão assentada pelo eminente psiquiatra Fernando Megre Velloso, relativamente a um caso específico no Brasil, de que na hipótese a ele submetida constatava-se que a periculosidade do agressor, já em campo, resultava não apenas de sua própria psicopatia, mas da manipulação dela por grupo interessado no êxito do atentado iminente. 

Portanto, influenciado por grupos ou pelo ambiente coletivo, fato é que o lobo, no caso, é capaz de entender seus propósitos, determinar-se e agir de acordo com eles, caracterizando a inconteste responsabilidade penal, sublinhada por seu discernimento e eficiência, supostamente solitária.

 A qualquer sorte, não se pode desprezar a eventual coincidência de sua psicopatia com os propósitos de terceiros, nem ignorar a influência da Lua em Chamas que colore no momento a política do Brasil. 

Fato é que como o país muda de luas sem observar o calendário, transformou-se em vítima aquele que se pretendeu apontar como vilão.

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