Os resultados do primeiro turno das eleições indicam que, de certo modo, houve um descolamento entre os votos concedidos ao Legislativo e ao Executivo. No caso do Legislativo, em especial a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, o eleitor optou por muitos nomes novos, não ligados ao establishment político-partidário. Os elevados índices de renovação nas duas Casas reforçam essa tese.
Já no Executivo a situação é outra. Nas disputas para os governos estaduais, o que se viu foi o eleitor, em larga medida, buscando refúgio em portos seguros e conhecidos. Diversos governadores foram reeleitos no primeiro turno e, no turno final, forças políticas conhecidas estarão frente a frente. As exceções estão no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal, onde três outsiders têm chances reais de conquistar os governos. Analisemos agora esse quadro.
Região Norte
Amapá: a família Capiberibe segue na disputa para retornar ao governo do Amapá. O senador João Capiberibe (PSB) enfrentará seu tradicional adversário, Waldez Góes (PDT), que tem elevado índice de rejeição. A campanha não tem sido fácil para Capiberibe – ele chegou a ter sua candidatura impugnada mas recorreu à Justiça Eleitoral, que concedeu liminar em seu favor. Sem pesquisas divulgadas até o momento, pode-se afirmar que não há favorito na disputa e que ela não termina no próximo dia 28, por já estar sub judice.
Amazonas: velha liderança política estadual, Amazonino Mendes (PDT) foi surpreendido no primeiro turno da disputa no Amazonas. Ele ficou atrás de Wilson Lima (PSC), que pode ter se beneficiado da onda de renovação de direita. O índice de rejeição de Amazonino é elevado, e os adversários que ficaram fora do segundo turno tendem a apoiar Lima, favorito no momento.
Pará: a família Barbalho tenta manter a força política no estado. O ex-ministro Helder Barbalho (MDB) lidera a disputa, segundo o Ibope. Ele teria 58% dos votos válidos, contra 42% de Márcio Miranda (DEM), seu adversário. Os desafios para o emedebista são conhecidos – altos índices de rejeição e o histórico polêmico da família Barbalho no estado.
Rondônia: o segundo turno em Rondônia apresenta um dado curioso – os dois candidatos apoiam o mesmo nome na sucessão presidencial. Tanto Expedito Junior (PSDB) quanto Coronel Marcos Rocha (PSL) declararam apoio a Jair Bolsonaro. O tucano é político experiente, sendo ex-deputado federal e ex-senador. Rocha, por sua vez, aposta na onda de renovação e no fato de pertencer ao partido de Bolsonaro. Qualquer resultado não surpreenderá.
Roraima: a crise dos refugiados venezuelanos deu votos e fez uma vítima nas eleições em Roraima – a governadora Suely Campos (PP), que tentava a reeleição, foi derrotada no primeiro turno. Agora, o ex-governador Anchieta Junior (PSDB) enfrentará Antônio Denarium (PSL). O tucano tem leve favoritismo, mas o candidato do PSL pode ser favorecido pelo apoio de Jair Bolsonaro, muito bem votado no estado.
Região Nordeste
Rio Grande do Norte: as urnas confirmaram as pesquisas de intenção de voto. A petista Fátima Bezerra disputa o segundo turno contra pedetista Carlos Eduardo. O atual governador, Robinson Faria (PSD), teve um desempenho pífio e chegou em um distante terceiro lugar.
O PT nacional aposta suas fichas na senadora. Sua vitória fecharia com chave de ouro o excelente desempenho do partido na região Nordeste.
Sergipe: o atual governador, Belivaldo Chagas (PSD), enfrenta o deputado Valadares Filho (PSB). Ambos aparecem com elevado índice de rejeição, mas, segundo o Ibope, Belivaldo venceria por 58% a 42%. O principal fiador da candidatura de Belivaldo é o ex-governador Jackson Barreto (MDB).
Região Centro-Oeste
Distrito Federal: o segundo turno no Distrito Federal opõe o MDB, que já foi governo em outras ocasiões, ao atual governador, Rodrigo Rollemberg (PSB). O emedebista é Ibaneis Rocha, advogado e debutante em eleições. Segundo o DataFolha, ele teria 75% dos votos válidos, contra 25% de Rollemberg.
A larga vantagem de Ibaneis representa mais um passo em uma ascensão fulminante, iniciada em meados de setembro. Ele passou de menos de 10% das intenções de voto para a liderança, deixando para trás políticos com larga experiência como o deputado federal Alberto Fraga (DEM), a deputada distrital Eliana Pedrosa (PROS) e o também deputado federal Rogério Rosso (PSD). Ao que tudo indica, deverá vencer o pleito com folga.
Mato Grosso do Sul: o Mato Grosso do Sul assistirá ao embate entre o tucano e atual governador Reinaldo Azambuja e o pedetista Odilon de Oliveira. Ainda não foram divulgadas pesquisas para o segundo turno. Com o apoio de partidos de centro-direita, Azambuja, em tese, tem leve favoritismo na disputa.
Minas Gerais: o estado produziu a grande surpresa do primeiro turno. O até então desconhecido Romeu Zema (Novo) suplantou a todos e disputa, na condição de favorito, contra o senador Antônio Anastasia (PSDB). Segundo o DataFolha, Zema tem 71% dos votos válidos, contra 29% do tucano. Vantagem mais que confortável.
Empresário, Zema sabe da grave crise fiscal enfrentada pelo estado. Mais do que o favoritismo, ao candidato do Novo será necessário compor, desde já, um pacto com as forças políticas mineiras. Do contrário, sua gestão corre o risco de naufragar.
Rio de Janeiro: o quadro de penúria dos estados tem no Rio de Janeiro sua síntese perfeita. Virtualmente quebrado e com tradicionais lideranças presas ou investigadas pela Justiça, o Rio chegou ao segundo turno com um nome tradicional, Eduardo Paes (DEM), enfrentando um outsider desconhecido até pouco tempo atrás, Wilson Witzel (PSC).
O mais recente Datafolha aponta o franco favoritismo de Witzel. Ele aparece com 61% dos votos válidos, contra 39% de Paes. O eleitor fluminense parece emitir um recado claro – quer uma mudança radical no comando do estado. Pior para Paes, que tem entre seus aliados de primeira hora o ex-governador Sérgio Cabral (MDB), condenado pela Lava Jato, e o governador Pezão (MDB), com índices de rejeição estratosféricos. A vitória, se assim continuar, está nas mãos do candidato do PSC.
São Paulo: conforme já comentado recentemente, o estado de São Paulo tem grande valor simbólico para o PSDB. Os tucanos comandam o governo desde 1995 e, pela primeira vez, podem sofrer um revés. Segundo o último DataFolha, João Dória (PSDB) tem 52% das intenções de voto, contra 48% de Márcio França (PSB), que conseguiu o feito de, nas últimas semanas do primeiro turno, dar uma arrancada e desbancar Paulo Skaf (MDB) que, de acordo com as pesquisas, iria disputar o segundo turno com Dória. Por isso que para o tucanato, a situação é mais complexa.
Caso vença o pleito, Dória se tornará a grande liderança do PSDB, que ainda se recupera do péssimo desempenho no primeiro turno em todo o país. O problema é que Dória está longe de unir a agremiação. Ao contrário, há muitos desafetos que não se incomodariam com a vitória de França. A derrota do PSDB no estado, por outro lado, ajudaria a colocar uma pá de cal no já debilitado tucanato. Enfim, qualquer resultado nessa disputa terá forte impacto na política nacional, em decorrência da importância política e econômica do estado de São Paulo.
Região Sul
Rio Grande do Sul: mais um estado que sofre os efeitos de grave crise fiscal, o Rio Grande do Sul assiste a uma disputa acirrada também no segundo turno. O atual governador, José Ivo Sartori (MDB), enfrenta Eduardo Leite (PSDB). O governador está em desvantagem – o Ibope mostra o tucano com 59% dos votos válidos, contra 41% de Sartori. Cabe lembrar que, em terras gaúchas, a reeleição é exceção, não a regra. A história tende a se repetir mais uma vez.
Santa Catarina: outro estado cujos resultados surpreenderam. Inicialmente considerado azarão, Comandante Moisés (PSL) derrubou dois nomes tradicionais da política local, Décio Lima (PT) e Mauro Mariani (MDB). Ele enfrenta agora Gelson Merísio (PSD), que tem a seu favor a ampla coligação e a força no interior do estado. O apoio de Bolsonaro pode ser decisivo para o candidato do PSL.
Considerações finais – Independentemente do partido e da linha programática, cada um dos 27 governadores que tomarão posse em janeiro necessariamente precisarão realizar um esforço hercúleo para equilibrar suas contas. Para isso, os chefes dos Executivos estaduais precisarão de amplo apoio da opinião pública e das assembleias legislativas, o que não será fácil, muito em decorrência do alto índice de renovação nos legislativos estaduais. Além disso, será necessário um amplo entendimento político com o Congresso Nacional e com o novo governo federal. As tão urgentes reformas necessariamente precisarão ser discutidas com seriedade, e os novos governadores serão peças fundamentais nesse processo.

























