Nos últimos dias e em face dos mais recentes acontecimentos, tenho me lembrado repetidamente do programa televisivo “Amaral Neto Repórter”, em que o corajoso jornalista, transportado por um helicóptero e pendurado à sua escada de resgate e salvamento, sobrevoava, quase tocando-a, a pororoca provocada pelo encontro das águas do Oceano Atlântico com aquelas do Rio Amazonas.
Acredito que deve ser mais ou menos nessa situação que se sente o presidente Bolsonaro, quando vê o oceano de mal feitos e de reivindicações ilegítimas avançarem em maré montante sobre a realidade que se pretendia pacífica como o encontro das águas do Rio Negro e do Solimões, que não se misturam mas também não se confrontam.
Ao Presidente, bem intencionado na consecução das reformas que prometeu e se empenha em concretizar, resta, como professor de educação física, surfar sobre as ondas que não se pode enfrentar, sem um risco de casualidades fatais. Com efeito, essa maré montante da velha política lembra as palavras de T. E. Lawrence, o Lawrence da Arábia, em seu livro clássico “Os Sete Pilares da Sabedoria”, que da mesma maneira que nós neste artigo descreve as ondas das insurreições árabes, que batem contra o rochedo e recuam, mas o refluxo já contém os elementos da onda seguinte.
Assim, diante dessa maré revolta que traz os elementos emersos do último pleito, os novos, muitas vezes não tão novos porque representando com sua pouca idade oligarquias decenárias; os sectários, com sua intransigência; os antigos, agarrando-se ao osso e todos reivindicando para si próprios, porque não compreendem a necessidade efetiva de um Brasil acima de todos, diante de tudo isso o presidente pode se preparar para o fato facilmente previsível de que esta onda não será única, porque haverá uma sucessão delas, durante todo o seu mandato.
Mais grave ainda, é um engano achar que a corrupção no Brasil começa ou termina no vereador ou no deputado estadual. Na verdade, grande número de eleitores e chefetes eleitorais, até mesmo em grandes cidades, exigem favores em troca de seus votos e o político para atendê-lo os repassa aos endinheirados, com o que se torna aos poucos ou de uma vez funcionário de empresas que não servem a República, porque a entendem como simples departamento acolhedor de suas ambições.
A tudo isso se somam os novos eleitos – incompetentes pela inexperiência – e muitos antigos, competentes na excrecência, com o que o Brasil vive a sua maior crise sem ter convocado, no mais das vezes, os seus melhores valores, reduzidos a simples assistentes da realidade macabra, pois se deixou o mérito brasileiro emigrar para países desenvolvidos, onde os diplomas das grandes universidades valem mais que as indicações politiqueiras e partidárias.
Como antídoto a tudo isso, acenam-se com reformas, esquecidos de que o povo não votou por elas mas pela melhoria da sua situação dramática.
E de qualquer sorte, quando se quer eliminar privilégios deve-se principiar atacando os que os detêm e não reduzindo ainda mais o pouco daqueles que quase nada possuem.
Deus ajude o presidente a surfar essa pororoca, lembrado de que o povo votou nele para diminuir sacrifícios e não para aumentá-los, quaisquer que sejam os pretextos.
A popularidade presidencial sobrevoa de perto uma pororoca que ameaça engolfá-la, reduzindo-a no preciso momento em que tirar, em lugar de conceder, o arrimo que a população necessita.
Para o povo o nome Bolsonaro associou-se a melhorar, e essa associação, se desfeita, irá desmanchar de forma litigiosa namoros, noivados e casamentos, que devemos ajudar o presidente a preservar.


















