Presidente Jair Bolsonaro resumiu o bicentenário de Independência do Brasil num ato político-partidário
O objetivo do presidente Jair Bolsonaro (PL) de fundir a comemoração cívico-militar da Independência com seus objetivos político-eleitorais, perseguido desde que ele tomou posse como presidente, atingiu o ápice nesta quarta-feira (07), bicentenário do 7 de Setembro, a menos de um mês da eleição. Atualizado às 18h49
No Rio de Janeiro, palco principal escolhido pelo presidente, distinguir o que era comício e o que era uma celebração de Estado tornou-se impossível, observou a Agência DW.
Parte de Copacabana foi tomada por bolsonaristas, entretidos e animados por voos rasantes de helicópteros militares levando a bandeira do Brasil e de aviões da esquadrilha da fumaça. A cada sobrevoo, locutores de carros de som gritavam “mito” ou “Bolsonaro”, para júbilo da base radical do presidente.
Paraquedistas militares levando bandeiras do país e uma do bicentenário fizeram manobras em frente à orla – mas um eventual apoiador do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria dificuldade para acompanhar a apresentação incólume. Enquanto os paraquedistas desciam, o locutor do carro de som questionava, com um tom entre a ameaça e o deboche, se havia “infiltrados” da “esquerdalha” no público presente.
Mais cedo, em Brasília, um cenário parecido se desenhou na Esplanada dos Ministérios, com apoiadores exibindo cartazes com mensagens anticonstitucionais pedindo um golpe militar e a dissolução do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em desvantagem nas pesquisas e com risco de não conseguir ser reeleito – o último Datafolha aponta que Bolsonaro está 13 pontos atrás de Lula –, o presidente acabou usando os eventos na capital e no Rio de Janeiro para repetir ataques contra adversários políticos e os poderes Judiciário e Legislativo e criar imagens de força ao lado de apoiadores, numa tentativa de demonstrar que ainda não está liquidado na disputa presidencial.
“Isso é o Datapovo. O resto é conversa fiada”, disse no evento o pastor fundamentalista Silas Malafaia, aliado do presidente, atacando as pesquisas eleitorais que apontam que Bolsonaro sofre com alta rejeição e ainda corre o risco de ser derrotado já no primeiro turno.
Neste ano, o desfile de 7 de Setembro no Rio de Janeiro, que tradicionalmente ocorria no centro da cidade, foi transferido de maneira inédita para o bairro de Copacabana, na Zona Sul.
Copacabana, um dos principais cartões-postais do Brasil, é um reduto do bolsonarismo. Na zona eleitoral que abrange o bairro, Bolsonaro obteve 61,43% dos votos válidos no segundo turno da eleição presidencial de 2018, contra 38,57% do petista Fernando Haddad. O presidente também liderou a votação no estado do Rio de Janeiro na eleição passada, conquistando 59,79% dos votos válidos no primeiro turno. Porém, em 2022, pesquisas indicam que sua vantagem deve ser menor no pleito de outubro. Segundo levantamento do Ipec, o presidente aparece com 39% das intenções.
A transferência do evento para Copacabana levantou preocupações sobre a segurança do evento e até alimentou especulações que bolsonaristas poderiam usar a concentração para encenar algum tipo de incidente ao lado dos militares. No entanto, não houve registro até o final da tarde de qualquer tipo de incidente.
Em Brasília, Bolsonaro pediu votos e voltou a repetir ameaças
Mais cedo, em Brasília, Bolsonaro já havia usado o feriado que marca o bicentenário da Independência do Brasil para fazer campanha e incitar apoiadores contra o Judiciário e o Legislativo.
Diante de milhares de apoiadores reunidos na Esplanada dos Ministérios, Bolsonaro fez elogios ao seu governo, afirmou que o Brasil tem pela frente “uma luta do bem contra o mal” e pediu a seus eleitores que convençam “quem pensa diferente” sobre “o que é melhor para o Brasil”.
Mais cedo, durante café da manhã no Palácio da Alvorada, Bolsonaro já tinha citado episódios históricos de tensão política e ruptura democrática no Brasil, incluindo o golpe militar de 1964, e disse que a “a história pode se repetir”.
“Quero dizer que o brasileiro passou por momentos difíceis, a história nos mostra. 22, 65, 64, 16, 18 e, agora, 22. A história pode repetir. O bem sempre venceu o mal”, disse o presidente.
Em Brasília, Bolsonaro participou de dois eventos. Um desfile militar para marcar o 7 de Setembro e um evento com apoiadores. Neste ano, ao contrário de desfiles anteriores, os chefes dos poderes Legislativo e Judiciário não compareceram ao evento. Apesar de serem aliados do presidente, os presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, têm evitado abraçar a pregação golpista de Bolsonaro.


























