O problema é que, depois do vazamento, a história mudou de lugar. Já não se tratava mais de negar contato, mas de explicar
Por André César – SP
Depois de Ciro Nogueira (PP/PI), a bola da vez é Flávio Bolsonaro (PL/RJ). O (ainda) pré-candidato à sucessão presidencial, flagrado pedindo dinheiro ao hoje ex-banqueiro Daniel Vorcaro para a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro (PL), tem muito a explicar. Algumas rápidas observações.
Em primeiro lugar, de acordo com as declarações do próprio Flávio e do PL, essa seria uma operação entre uma instituição privada e uma produtora igualmente privada. Até aí, nada fora do padrão. A questão é que boa parte dos recursos do Banco Master está sob investigação por ilícitos, ou crimes, como queira. Esse é um nó.
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Decisão monocrática_ Decisão Interlocutória
Para piorar, Flávio Bolsonaro sempre negou qualquer proximidade, relação relevante ou transação com Daniel Vorcaro ou Banco Master. Quando o número do senador apareceu entre os registros apreendidos no celular do ex-banqueiro, a versão foi de afastamento. Horas antes da publicação dos áudios, segundo relatos da imprensa, a negativa ainda era a mesma.
O problema é que, depois do vazamento, a história mudou de lugar. Já não se tratava mais de negar contato, mas de explicar a natureza da operação, agora apresentada como patrocínio privado para um filme privado. É muita diferença em pouco tempo.
A contradição não para aí. Aliados de Flávio, como o influencer Paulo Figueiredo e o “produtor” Mário Frias, negaram tudo. Mais ainda, a produtora do filme também disse não ter visto a “cor do dinheiro”. Faltou um mínimo entendimento entre os envolvidos, o que levanta muitas suspeitas. Em política, versões desencontradas costumam fazer mais estrago que o próprio fato.
Há ainda um ingrediente institucional nada desprezível. Flávio Bolsonaro, agora e somente depois do vazamento do seu áudio com Vorcaro, passou a defender a CPI do Master. Ocorre que, antes disso, a oposição, segundo relato atribuído ao senador Izalci Lucas (PL-DF), teria feito acordo com o presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para que não fosse realizada a leitura do requerimento de abertura da CPMI do Banco Master na sessão conjunta do Congresso Nacional. A oposição negou o acordo, é verdade. Mas a coincidência política é ruidosa: antes, silêncio conveniente; depois do áudio, indignação pública.
.A prisão de Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, na manhã dessa quinta-feira, 14 de maio, reforça a percepção de que a fervura seguirá por um bom tempo. O caso Master, ao que tudo indica, ainda tem muitas camadas a revelar.
. Interessante notar que o site Intercept tinha as informações logo pela manhã e procurou Flávio. Somente após a publicação do material, à tarde, a chamada “grande imprensa” veio atrás, com o fato já consumado. Mais uma vez, a dinâmica do fato novo atropelou a tentativa de controle narrativo.
. No plano puramente político, é inegável que a pré-candidatura de Flávio levou um tiro, talvez de morte. Difícil imaginar que ele consiga manter o nome no jogo sem carregar, de forma permanente, a sombra de Vorcaro e do Banco Master. A própria reunião da cúpula do PL, na noite de ontem, indica isso. Momentos de pura tensão, de acordo com observadores.
. Potenciais aliados de Flávio, como o ex-governador mineiro Romeu Zema (Novo), também pré-candidato mas até então cotado para a vice na natimorta chapa, criticou duramente o senador fluminense. Como se diz, “oportunistas não perdem a oportunidade”.
. Outro que criticou duramente o ocorrido foi Ronaldo Caiado (União Brasil/GO), mas esse tem mais densidade e história política que Zema e, sem entrar no mérito, não pode ser chamado de oportunista.
. Por sinal, será importante observar os próximos movimentos da direita. Zema e Caiado ganharão espaço e tração junto ao eleitorado? Terão novos apoios? Conseguirão se apresentar como alternativa real ou apenas como sobreviventes de uma implosão alheia?
. E o PL? Caso Flávio saia mesmo do jogo, qual seria a alternativa? Um nome que se cogita é o da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o que traria um risco extra para o presidente Lula (PT). Mulher e evangélica, pode agregar mais do que o próprio Flávio.
. O problema é que a direita extremada não tem exatamente um plano B à mão. Tarcísio de Freitas, Eduardo Leite e Ratinho Jr., nomes sempre lembrados como saídas de emergência, não se desincompatibilizaram de seus cargos no prazo legal e, por isso, não podem simplesmente ser retirados da prateleira para disputar a Presidência. Ratinho, aliás, já havia anunciado que ficaria no governo do Paraná. Tarcísio, por sua vez, permaneceu no governo de São Paulo e vinha reiterando o projeto de reeleição.
A direita que apostou tudo em Flávio pode descobrir, tarde demais, que queimou as pontes alternativas.
. Resumo da ópera: o caso Master é a história sem fim… e Flávio Bolsonaro acaba de entrar no roteiro.














