A política virou uma grande família

Tatuagem adolescentes
Crianças e adolescentes poderão opinião sobre a política do setor/Arquivo
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A parentagem é um absurdo e por isso o eleitorado não está sendo representado seja no Executivo como no Legislativo

Por Gilmar Corrêa – DF

Costumo dizer que o Brasil é uma capitania hereditária, para lembrar o período de 1534 a 1759. O sistema foi criado pelo rei D. João III para colonizar o território. O processo de extinção oficialmente ocorreu sob a administração do Marquês de Pombal.

Pois bem, sabemos que o sistema hereditário não terminou. Na política, vivemos uma situação de pai para filho, de marido para esposa, de sobrinho para tio e por aí vai.

Faça uma análise no seu estado de quem realmente são os “nossos representantes”. Nas assembleias legislativas, nas câmaras de vereadores, no Congresso Nacional.

A parentagem é um absurdo e por isso o eleitorado não está sendo bem representado seja no Executivo como no Legislativo.

Penso que as “famílias” estão sendo representadas. E esse sistema nada democrático recebe um reforço com as emendas parlamentares, por exemplo.

Difícil acreditar que o político que está à frente de uma legenda partidária irá apoiar um candidato que não seja do seu convívio familiar.

Na Câmara dos Deputados, por exemplo, há a suspeita de que 120 a 130 parlamentares têm algum grau de parentesco.

Em muitos casos, essa relação parental é transferido para o Senado. Não é difícil lembrar que pai e mãe, pai e filho, já dividiram ou divem o mesmo plenário da Câmara Alta.

Veja alguns casos só na esfera federal para refrescar a memória:

Sergio e Rosângela Moro; Duda e Lula da Fonte; Aguinaldo e Daniela Ribeiro; Júlio César e Jussara Lima; Renildo e Renan e Renan Calheiros Filho; Jader, Alcione e Jader Filho e Elder Barbalho, Otto e Otto Alencar Filho; Jair, Flávio, Eduardo, Carlos e Jair Bolsonaro.

E essa situação familiar extrapola o Parlamentar. Wellington Dias tem a esposa Rajane Dias no Tribunal de Contas do Piaui. Camilo Santana tem a esposa no Tribunal de Contas do Ceará.

A mãe de Eduardo Campos foi ministra do Tribunal de Contas da União.

Levantamentos apontam que cerca de 30% a 32% dos conselheiros e ministros de tribunais de contas (TCUs, TCEs e TCMs) possuem laços de parentesco com políticos em atividade ou já consolidados.

Os exemplos não acabam. Faça você mesmo a sua lista.

Até junho e julho, quando ocorrem as convenções partidárias para definição de nomes como candidatos, o grau herediátio poderá ser confirmado com maior nitidez.

Não será surpresa que candidatos ao governo tenham parentes que disputarão vagas no Legislativo. Ou que senadores tenham como suplentes, filhos, pais ou esposas.

Essa questão da parentagem torna o ambiente político tóxico. Quando se fala em democracia, difícil imaginar a legitimidade da representação popular com um grau violento de parentes ditando as regras ano após ano.

Ainda dá tempo de observar a capitania hereditária até outubro. É certo que não vamos acabar, mas é póssivel dar um pequeno freio a esse absurdo.

O voto não é um gesto isolado, mas, sim, um ato com consequências que se estendem por quatro anos na vida dos brasileiros, como escreveu no Misto Brasil o ex-prefeito de Santo André (SP), Paulo Serra.

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