A amizade deixa de ser apenas uma experiência social para tornar-se um espaço de interesse econômico com as novas tecnologias
Por Charles M. Machado – SC
Durante muitos anos acreditamos que a grande disputa tecnológica do século XXI ocorreria em torno da informação. Depois compreendemos que o ativo verdadeiramente escasso nunca foi a informação, mas a atenção humana. Hoje, entretanto, assistimos a um novo movimento.
As plataformas digitais já não competem apenas pelo nosso tempo. Elas começam a disputar algo muito mais profundo: a nossa companhia.
Uma reportagem publicada pelo jornal espanhol El País chama atenção para um fenômeno crescente entre adolescentes: o uso de inteligências artificiais como amigos, confidentes e interlocutores permanentes. O problema deixa de ser apenas tecnológico para tornar-se econômico, social e político.
Durante praticamente toda a história da civilização, amizades nunca foram concebidas como um mercado. Elas surgiam da família, da escola, da vizinhança, do trabalho ou da comunidade.
Pela primeira vez, empresas investem bilhões para desenvolver sistemas capazes de competir pela companhia humana. A amizade deixa de ser apenas uma experiência social para tornar-se um espaço de interesse econômico.
Esse fenômeno não representa uma ruptura com a Era da Desatenção. Ao contrário, constitui uma de suas manifestações mais sofisticadas.
A Era da Desatenção nasceu quando tecnologias distintas passaram a convergir para um mesmo objetivo: capturar, administrar e monetizar a atenção humana.
Durante décadas acreditou-se que a tecnologia serviria para aproximar pessoas. Em muitos aspectos isso aconteceu.
Contudo, paralelamente, observamos um silencioso afastamento das relações presenciais, da convivência comunitária e da capacidade de permanecer plenamente atento ao mundo real.
Hoje a competição não ocorre apenas entre empresas de tecnologia. Ela acontece entre plataformas digitais e praticamente todas as instituições sociais. Famílias disputam atenção com aplicativos.
Escolas disputam atenção com algoritmos. Livros disputam atenção com vídeos curtos. Professores disputam atenção com influenciadores. Agora, amigos começam a disputar espaço com inteligências artificiais.
No início da internet, a disputa concentrava-se nos cliques. Depois vieram o tempo de permanência, o engajamento e a hiperpersonalização. Os chamados amigos digitais representam uma nova etapa dessa evolução.
Equilíbrio entre tecnologia e relações humanas
A inteligência artificial responde imediatamente, adapta sua linguagem ao perfil de cada usuário e transmite uma sensação permanente de disponibilidade. Não se trata de afirmar que substituirá as relações humanas, mas de reconhecer que passa a competir com elas.
O risco não está apenas na existência da tecnologia, mas na lógica econômica que incentiva sua utilização contínua. Quanto maior o tempo de interação, maiores tendem a ser as oportunidades de coleta de dados, personalização, fidelização e monetização.
Podemos estar assistindo ao surgimento de um verdadeiro capitalismo da companhia. Se a economia da atenção monetizou o tempo das pessoas, esta nova fase procura monetizar sua presença emocional.
A plataforma já não deseja apenas alguns minutos do usuário; deseja ocupar espaços tradicionalmente reservados à família, aos amigos, aos professores e até aos terapeutas.
Essa transformação possui profundas implicações políticas. Democracias sempre dependeram de instituições intermediárias para formar cidadãos: famílias, escolas, universidades, imprensa, associações e comunidades.
Quando parte significativa dessas interações migra para plataformas privadas, desloca-se também parte da influência social e cultural.
Por isso, o debate não deve restringir-se à saúde mental dos adolescentes. A questão envolve soberania cognitiva, formação de opinião, autonomia individual e o equilíbrio entre inovação tecnológica e preservação das relações humanas.
Enquanto acreditarmos que o problema está apenas na tecnologia, continuaremos discutindo seus efeitos e ignorando suas causas. O centro da questão nunca foi a máquina. Sempre foi a disputa pela atenção.
Talvez a frase que melhor sintetize esse momento seja esta: a desatenção produzida pelas plataformas abriu caminho para a privatização das relações humanas. Depois de disputar nossos olhos, nossas mãos e nosso tempo, elas começam a disputar aquilo que há de mais humano: nossos vínculos.
A pergunta do futuro talvez deixe de ser se as máquinas serão inteligentes. A pergunta será outra: quanto da nossa vida estaremos dispostos a entregar para que elas ocupem o espaço que antes pertencia às pessoas?
A Era da Desatenção parece ingressar em uma nova fase. Não porque as máquinas aprenderam a pensar como seres humanos, mas porque aprenderam, silenciosamente, a ocupar o lugar que antes era reservado aos próprios seres humanos.


















