O Carnaval continua sendo uma plataforma de debate político. Traz em suas letras de música temas ligados aos direitos humanos, meio ambiente e democracia
Por Clarice Binda – DF
O Carnaval brasileiro é reconhecido mundialmente por sua exuberância, festas intermináveis e alegria do povo. Alguns, que são avessos ao Carnaval, o criticam por considerá-lo um total momento de alienação do povo, que em meio a tantas mazelas que vive, se diverte e gasta dinheiro como se não houvesse amanhã.
No entanto, apesar de ser legítimo qualquer forma de válvula de escape não violenta, o carnaval também é um espaço de expressão política e social.
Desde os tempos coloniais até a contemporaneidade, as manifestações carnavalescas têm sido utilizadas como instrumento de crítica, resistência e engajamento político, por mais que não pareçam.
Com a abolição da escravatura e a proclamação da República, no final do século XIX, os blocos e cordões carnavalescos passaram a incorporar temas políticos e sociais em suas músicas e desfiles.
Ainda como palco de resistência, durante a ditadura militar no Brasil, as escolas de samba e os blocos de rua utilizaram enredos e marchinhas para criticar a censura, a repressão e a desigualdade social.
E hoje não é diferente, pois o Carnaval continua sendo uma plataforma de debate político, já que traz em suas letras de música muitos temas ligados aos direitos humanos, meio ambiente e democracia.
Durante o mandato do ex-presidente da República (2019-2022), o Carnaval – e não só ele – se tornou ainda mais politizado.

As críticas ao governo e suas políticas foram expressas em desfiles e marchinhas, abordando temas como o negacionismo da pandemia, os ataques à cultura e à educação, além do crescimento da intolerância política.
A cultura tem mesmo esse poder de discutir temas políticos profundos de forma poética e encantadora. Veja-se a repercussão mundial do filme brasileiro “Ainda estou aqui”.
Indicado ao Oscar em três categorias, ganhador de mais de 30 prêmios mundiais, esse tesouro cinematográfico brasileiro, de forma profunda e sob olhar de uma mulher, Eunice Paiva (interpretada por Fernanda Torres), trouxe à tona a discussão sobre a validade da Lei da Anistia, aprovada pelo Congresso Nacional e chancelada pelo Supremo Tribunal Federal.
Por conta da repercussão do filme, o Conselho Nacional de Justiça aprovou uma resolução que obriga os cartórios de todo o país a retificarem a causa das mortes ocorridas pela ditadura militar, ao invés de morte natural, como mortes causadas pelo Estado brasileiro.
Além disso, o STF vai rediscutir a validade da Lei da Anistia aos crimes permanentes ocorridos na ditadura, como os casos do crime de ocultação de cadáver de perseguidos políticos, a exemplo da morte de Rubens Paiva.
É fato que o carnaval brasileiro é uma festa histórica e de repercussão mundial. Nenhum outro país comemora o carnaval como o Brasil. A avaliação sobe tal fato não pode se resumir a gostar ou não gostar.
É uma realidade. Então, por que não aproveitarmos a festa para mobilizar e conscientizar a população sobre questões urgentes, como o racismo, a desigualdade de gênero e a mudanças climáticas?
Se é possível aliar diversão e política, o Brasil é um grande exemplo disso. Além disso, é mais que necessário popularizar as discussões sobre direitos humanos, ir além dos espaços intelectualizados, e o carnaval é uma ferramenta importante para esse fim.
O Carnaval brasileiro é muito mais do que uma festa: é uma manifestação cultural e política poderosa, é a celebração de um espaço de resistência, crítica e reivindicação por direitos, é território da liberdade de expressão, sempre com respeito e tolerância, mas onde a alegria e a irreverência podem ser ferramentas de transformação social.
E quem luta por direitos, pode aproveitá-lo também para isso.




















