Um acordo de paz que não importa

Congo guerra crianças órfãos
Crianças são as principais vítimas das guerras, como a do Congo/Arquivo/Serge Kats/X
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Na prática, apesar de toda a sua importância e valor estratégico, a África não figura na ordem de prioridades dos países mais ricos

Por Marcelo Rech – DF

No dia 27 de junho, um acordo de paz que parecia inalcançável, foi firmado em Washington com as bênçãos da administração Trump, pavimentando a paz para uma região crucial em termos globais. No entanto, essa paz não importa, pois ela é celebrada no coração da África.

E a África só importa para quem quer aparecer. Na prática, apesar de toda a sua importância e valor estratégico, ela não figura na ordem de prioridades. O acordo entre Ruanda e Congo, põe fim à uma guerra fraticida entre irmãos e sustentada por décadas, por interesses políticos e econômicos.

Claro, ainda é muito cedo para cravar se este acordo será duradouro, mas um pouquinho de atenção por parte das grandes potências, ajudaria bastante. Por enquanto, os dois países se comprometem a respeitar a soberania territorial de seus vizinhos e estabelecer um cessar-fogo abrangente, eliminar todo o apoio a grupos armados que operam na fronteira comum e garantir a segurança da população civil e dos atores humanitários.

Não é pouca coisa. E são condições absolutamente necessárias para que se olhe para o futuro e se promovam o desenvolvimento conjunto por meio da atração de investidores internacionais.

A região precisa virar a página de forma definitiva. As relações de vizinhança são dramáticas e trágicas, especialmente desde o genocídio contra os tutsis (1994), quando os massacres em Ruanda continuaram a partir do Congo.

A evolução dessa dinâmica violenta levou à duas guerras – 1996-1997 e 1998-2003. Desde 2021, a violência voltou a escalar, com o grupo M-23, apoiado por Ruanda, assumindo o centro do palco, embora Kigali negue veementemente qualquer apoio a um grupo que nunca foi derrotado pelas forças congolesas.

Após tantos anos de guerra, mortes e miséria humana, a assinatura deste acordo poderia ser explicada pelo simples cansaço das partes. Ficou claro, para ambos, que nenhum dos lados tem condições de impor uma derrota contundente ao outro. A guerra em si, há muito deixou de ser um instrumento a serviço de um propósito político, consolidando-se como um triste modo de vida que lhes concede algum poder e recursos.

Mas a paz não nasceu desse sentimento.

Os EUA não atuaram preocupados com os milhares de mortos. Claro, que não. Trump sabe que a República Democrática do Congo é um ativo altamente cobiçado na competição contínua com a China pelo controle de recursos escassos.

A China atualmente detém uma posição dominante no controle das chamadas terras raras e outros minerais essenciais em computação quântica, inteligência artificial, fabricação de semicondutores de ponta, veículos elétricos e outras tecnologias altamente sofisticadas.

A RDC ostenta enorme riqueza em muitos desses recursos, detendo até 60% das reservas mundiais de coltan e respondendo por 70% da produção global de cobalto, entre outros.

Dessa forma, como fez com a Ucrânia, Trump espera obter acesso preferencial a recursos que lhe permitirão reduzir sua dependência de Pequim como fornecedor e atrair o presidente congolês Félix Tshisekedi para a órbita norte-americana. Ao mesmo tempo, envolverá também o presidente ruandês Paul Kagame e, bingo, a paz está feita.

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