Governo tem sim parte da culpa pelo aumento da inflação, puxada pelos alimentos e bebidas
Texto de Vivaldo de Sousa
A inflação medida pelo IPCA deverá ficar acima de 8% em 2021, segundo a mais recente pesquisa feita pelo Banco Central com os analistas do mercado financeiro. Se confirmada essa estimativa, o terceiro ano do governo Bolsonaro será também o terceiro ano de aumento consecutivo da inflação.
Em 2019, a inflação acumulou uma alta de 4,31%. No ano anterior, em 2018, o IPCA havia ficado em 3,75%. Conforme dados do IBGE, responsável pelo cálculo do indicador oficial de inflação, a elevação de preços em 2019 foi puxada pelo aumento de preços do grupo alimentos e bebidas, com alta de 6,37% no ano.
Essa alta foi puxada, sobretudo, pelas carnes, cujos preços dispararam no mercado interno devido ao aumento das exportações para a China e à desvalorização do real. No ano, a carne registrou uma alta de 32,40%, segundo o IBGE. Na época em que foi divulgada, foi a maior inflação anual desde 2016, quando o índice ficou em 6,29%.
A inflação continuou em alta em 2020, segundo ano do mandato de Bolsonaro, quando chegou a 4,52%. O item alimentos e bebidas, com alta de 14,09% no ano, foi novamente o vilão dos preços altos. Segundo o IBGE, os alimentos responderam sozinhos por quase metade da inflação do ano, com um impacto de 2,73 pontos percentuais sobre o índice geral.
Os preços do óleo de soja, com alta de 103,79%, e do arroz, aumento de 76,01%, pesaram no bolso dos consumidores. Mas outros itens importantes na cesta das famílias também registraram aumentos expressivos: leite longa vida (26,93%), frutas (25,40%), carnes (17,97%), batata-inglesa (67,27%) e tomate (52,76%). E num ano com queda de 4,8% no PIB per capita.
Neste ano, a inflação acumulada pelo IPCA está em 10,25%, mas a expectativa, até o momento, é que não deve fechar o ano de 2021 em dois dígitos. A última vez em que a inflação oficial anual ficou em dois dígitos foi em 2015, quando atingiu 10,67%. No período, o aumento do preço dos alimentos passou, na média, de 15%. Em 12 meses, os combustíveis subiram 42,02%.
Embora o ministro da Economia, Paulo Guedes, diga que a alta de preços no Brasil acompanha um fenômeno global, com destaque para preços de alimentos e energia no mercado doméstico, o governo tem sim um parte da culpa pelo aumento da inflação. Evitar que a inflação saia do controle exige mais que discurso e desinformação.
E o primeiro passo é reconhecer que houve erros na condução da política econômica, prejudicada ainda pela má gestão da pandemia da covid-19 e pelo clima, quase constante, de embate político. Alimentos mais caros são o lado mais visível da inflação e, junto com o desemprego, ainda elevado, e a crise sanitária, que provocou a perda de mais de 600 mil pessoas, serão temas fortes na campanha presidencial de 2021.
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