O novo normal é socialmente pior com a queda da renda mundial, o que aumentou o desespero, as frustrações e a fome
Por Charles Machado – SC
A sociedade já passou por outras pandemias como, por exemplo, a gripe espanhola. Contudo, pela primeira, vez a comunidade mundial após a instauração da economia transnacional extremamente globalizada, sofreu e sofre com uma pandemia, logo passados mais de dois anos da decretação de pandemia mundial, passamos nesse período, como o maior experimento social e econômico da história, uma vez que o rápido contágio também se deu em razão dessa economia transfronteiriça.
O período marcou a ruptura do modelo tradicional de trabalho fazendo com que muitas empresas jamais voltassem ao seu formato original, sendo que muitas delas após esse período nem mesmo voltaram.
Se serviu para testar novas tecnologias e novas formas de relação de trabalho e lazer, redesenhando relações, serviu também para mostrar a face mais dolorosa da desigualdade econômico social.
Ferramenta de mensagens instantânea, e-mail, documentos compartilhados e até ferramentas de conversas por vídeo para suprir a necessidade do “cara-a-cara” foram incorporadas e hoje já são vastamente utilizadas, sem que a produtividade fosse perdida.
Acelerada pela pandemia, o tecido social e seu arranjo desigual foram catalisados mostrando suas vísceras, provocando um retrocesso de cinco anos no progresso da humanidade, e potencializando uma onda global de incerteza, segundo um relatório da ONU divulgado nesta quinta-feira.
Segundo o relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) o Índice de Desenvolvimento Humano caiu de maneira consecutiva em dois anos, 2020 e 2021, pela primeira vez desde sua criação há 30 anos, é esse índice que mensura a expectativa de vida, o nível de educação e o parâmetro de vida dos países.
Ou seja, o novo normal é socialmente pior com a queda da renda mundial, o que aumentou o desespero, as frustrações e a fome das pessoas.
Se o índice vinha melhorando nos últimos 20 anos, entre 2020 e 2021 ele caiu cinco anos, retrocedendo de forma global, e afetando mais de 90% dos países do mundo. Quando a vida com a qual todos nós estávamos acostumados parou, outro tipo de vida que ninguém antevia emergiu, acelerando transformações e colocando a todos em um turbilhão de inquietações, um clima perfeito para os falsos messias, falsas notícias, falsos conteúdos que aceleraram com o universo paralelo das bolhas de nossas redes sociais.
Passado o período mais doloroso da pandemia, onde as mortes no Brasil eram registradas diariamente aos milhares, voltamos nas grandes cidades aos engarrafamentos, e seguimos nos adaptando a essa nova vida, onde quase todos ficamos mais pobres, mais inseguros e intranquilos, onde alguns a inquietação é do horizonte turvo já para outros a insegurança nasce de uma vida a cada dia mais miserável, impulsionada pela inflação de um país dependente da exportação de comodities que seguem no mundo a lógica da melhor oferta, um Brasil onde nunca se produziu tantos alimentos e nunca tivemos tanta fome.
Nesse período muita coisa boa aconteceu, a começar pela produção das primeiras vacinas, em menos de 18 meses um recorde, que é resultado do esforço da sociedade científica mundial, e de governantes que acreditam na ciência e que não pouparam esforços para que isso acontecesse, enquanto alguns delirantes duvidavam ou propagavam Fake News, que reproduziam teorias da conspiração, desinformação, dúvidas da ciência, além de estimular o uso de remédios sem qualquer eficácia comprovada.
A concentração de recursos e de esforços ajudou a acelerar o processo, o que permitiu ultrapassar o prognóstico de Bill Gates, de que poderíamos até 2022 ter três bilhões de pessoas vacinadas, isso já ocorreu no fim de 2021. As projeções dos especialistas de que teríamos dois anos em que viveremos aberturas e fechamentos, se concretizou, mudando a intensidade desse período na razão inversa da vacinação. Se em 2020, as pessoas faziam seus exercícios em frente ao celular, em uma aula em vídeo, postava tudo no Facebook e no Instagram, achando que toda a nossa quarentena era interessante, em 2021 cada nova dose de vacina era uma conquista, e claro enquanto isso milhões de trabalhadores no Brasil e no mundo perdiam seus empregos e eram incorporados nas subposições de trabalhos da chamada economia compartilhada.
No “novo normal” a velha estratégia de exploração permanece, esmagada pelas poucas opções de emprego. Não deixa de ser simbológico o fato da primeira vítima do coronavírus no Brasil tenha sido a empregada doméstica Cleonice, que foi contaminada no bairro chique do Leblon pela patroa que voltou da Itália com o vírus.
O Brasil sempre foi baseado na dicotomia entre casa grande e senzala, e aqui rendo homenagem a Gilberto Freire. Hoje, quem sustenta, alimenta e esconde para os olhos da casa grande essa desigualdade é a tecnologia, ela que alimenta e solidifica a sociedade da desatenção, e é quem amplifica essa perversa desigualdade que vivemos no Brasil em uma escala global.
A tecnologia alimenta a desigualdade e também a esconde: é possível não ter nenhum contato com as mazelas da sociedade, em nome da comodidade. O “novo normal” não é novo e nem também é normal, pois aperfeiçoa novas formas de exploração, com novos hábitos, no mínimo estranhos, ou faz sentido casais de namorados sentados de frente um para o outro em um restaurante, atentos as telas dos seus celulares e não no olhar da pessoa amada?
A pandemia não deixou a maioria absoluta das pessoas mais sensíveis, pois elas continuam sendo impacientes no trânsito, desrespeitosas e irresponsáveis quando respondem mensagens em seus carros enquanto dirigem seus carros, insensíveis pois com seus olhares fixos nas telas do seus smartphones caminham alheias e indiferentes aos pedintes na calçada, como se seus celulares os conduzissem para o metaverso da indiferença, nesse nada novo normal.












