As marcas estão presentes em comerciais, patrocinam programas esportivos, jogadores, influenciadores e campanhas nas redes sociais
Por Simone Machado – RJ
A Copa do Mundo é um dos maiores eventos esportivos do planeta. Durante os 39 dias, 48 seleções se enfrentarão. A competição se torna assunto de milhões de pessoas e o que não faltam são palpites.
O bolão entre amigos, a aposta valendo cerveja no bar e, cada vez mais, as plataformas de apostas, as chamadas bets.
E as bets têm se mostrado uma presença incessante. As marcas estão presentes em comerciais durante as partidas, patrocinam programas esportivos, jogadores, influenciadores digitais e campanhas nas redes sociais.
Embora pareçam uma versão digital dos conhecidos bolões, as apostas online durante a Copa do Mundo preocupam especialistas em saúde mental. Eles alertam que esse cenário pode representar um gatilho importante para pessoas que sofrem com ludopatia, também conhecido como transtorno do jogo.
Essa preocupação se justifica. Pesquisa da empresa Kantar aponta que sete em cada dez brasileiros pretendem acompanhar a competição.
Além da transmissão clássica, os torcedores buscam outros conteúdos sobre o campeonato como notícias (68%), memes e redes sociais (50%), vídeos de melhores momentos (38%) estatísticas e análises (32%).
Os dados mostram também que 37% dos brasileiros pretendem fazer apostas em bets durante o mundial. Entre os tipos de aposta preferidos estão resultado das partidas (51%), número de gols (26%), campeão da Copa (18%), lances específicos (10%) e no artilheiro (8%).
“Há um aumento expressivo da exposição aos jogos, às campanhas publicitárias das casas de apostas e às conversas sobre o tema.
Esse ambiente pode reativar o desejo de apostar, especialmente em indivíduos que ainda apresentam vulnerabilidade ao comportamento compulsivo.
Além disso, o clima de entusiasmo coletivo pode reduzir a percepção de risco e favorecer decisões impulsivas“, explica Cristiane Vaz de Moraes Pertusi, psicóloga e psicoterapeuta especialista em saúde mental e presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF).
Mercado em expansão
O Brasil vive uma explosão do setor de apostas esportivas. Segundo o estudo Análise do Mercado de Bets no Brasil, feito pela Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting+Technology, as apostas movimentaram cerca de R$37 bilhões em receita bruta em 2025.
O setor já alcança mais de 25 milhões de usuários e opera em escala nacional, se consolidando como uma das áreas de maior crescimento dentro da economia digital brasileira.
Outros números ajudam a dimensionar o fenômeno das bets no país. Dados do Instituto Locomotiva, divulgados em 2024, apontam que aproximadamente 52 milhões de brasileiros com mais de 18 anos realizaram apostas esportivas. Entre eles, 79% pertencem às classes C, D e E.
O levantamento também identificou um dado considerado preocupante por especialistas: 64% dos apostadores afirmaram utilizar a principal fonte de renda para financiar as apostas.
Em outras palavras, o dinheiro destinado ao orçamento familiar frequentemente é direcionado para jogos de azar.
Para especialistas ouvidos pela reportagem da DW, a combinação entre ampla oferta, facilidade de acesso por smartphones, forte investimento em publicidade e familiaridade dos brasileiros com o tema futebol cria um ambiente ainda mais favorável ao aumento dos casos de dependência nesse tipo de aposta durante a Copa do Mundo.
“O apostador acredita que, por ‘entender de futebol’, pode prever o resultado dos jogos, o que é um erro cognitivo clássico da ludopatia. A sucessão rápida de partidas impede que o cérebro saia do estado de alerta, mantendo o sistema de recompensa constantemente ativado”.
“O jogo passa a ser visto como normal nestas ocasiões, parte da celebração, o que dificulta a imposição de limites“, explica Cíntia Sayd, psiquiatra, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).
(Simone Machado trabalha na Agência DW)




















