Mesmo para quem teve aumento de renda, o cotidiano financeiro não necessariamente melhorou, conforme as pesquisas
Por Clarice Binda – DF
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou, na última sexta-feira (08), que a renda média dos brasileiros chegou a R$ 3.367 em 2025 — o maior valor desde o início da série histórica da PNAD Contínua.
Um crescimento real de 5,4% em relação ao ano anterior, acima da inflação. Na mesma semana, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) revelou que o endividamento das famílias brasileiras também bateu recorde: 80,9% delas estão com dívidas em aberto.
Dois recordes simultâneos. E a pergunta óbvia: para quem, afinal, o Brasil está crescendo?
A resposta, como quase sempre, depende de quem você é.
O crescimento que não chega igual
Os números do IBGE só escancararam aquilo que muitas pessoas já vivem na pele. Enquanto a média nacional chegou a R$ 3.367, pessoas brancas receberam em média R$ 4.577. Pretos ficaram em R$ 2.657 e pardos em R$ 2.755 — uma diferença que não é acidental, mas estrutural.
O relatório Desigualdade S.A., da Oxfam, já havia apontado que no Brasil, em média, o rendimento das pessoas brancas é mais de 70% superior à renda de pessoas negras — e os dados de 2025 confirmam que essa distância segue firme.
A desigualdade de gênero segue a mesma lógica. Homens têm rendimento médio de R$ 3.921; mulheres recebem R$ 3.085. Essa diferença não se explica apenas pela escolha de profissão.
Ela reflete a menor valorização das funções ocupadas majoritariamente por mulheres, as interrupções na trajetória profissional impostas pelo trabalho de cuidado — que recai desproporcionalmente sobre elas — e a persistente machismo estrutural que mantém mulheres longe dos cargos de liderança e dos salários mais altos.
E quando gênero e raça se somam, o impacto é ainda mais grave. Dados do IBGE já mostraram que mulheres negras recebem o equivalente a apenas 60,71% da renda média dos homens brancos — uma combinação de desigualdades que não é coincidência, mas o retrato de como o mercado de trabalho brasileiro foi historicamente desenhado para incluir uns e excluir outros.
Quem mais se endivida — e por quê
Mas há um paradoxo cruel que atravessa tudo isso e que marca a economia (e a política) atual brasileira: mesmo para quem teve aumento de renda, o cotidiano financeiro não necessariamente melhorou.
A proporção de famílias brasileiras com dívidas subiu de 80,4% em março para 80,9% em abril de 2026 — um novo recorde histórico, segundo a CNC. Um ano antes, esse número era de 77,6%.
E, mais uma vez, esse peso não recai de forma igual. As mulheres são as que mais carregam o fardo do endividamento. O percentual de mulheres endividadas segue consistentemente superior ao dos homens — e o endividamento é maior porque elas têm menos renda para lidar com o dia a dia, segundo o economista-chefe da CNC.
A equação é simples e perversa: menos salário, mais crédito para fechar as contas, mais dívida. Dados da Serasa mostram que 93% das brasileiras contribuem para o sustento do lar, e em um terço das famílias elas são as únicas responsáveis por essas despesas — percentual que sobe para 43% nas classes D e E (número que cai para 18% nas classes A e B).
Para completar, oito em cada dez mulheres já tiveram algum pedido de crédito negado, o que as empurra para modalidades ainda mais caras e precárias de financiamento.
Para as mães solo e as mulheres negras, esse cenário tem contornos ainda mais severos — e os números ajudam a dimensionar o tamanho do abismo. As mães solo somavam 12,19 milhões no quarto trimestre de 2025, e a dinâmica recente desse crescimento foi explicada predominantemente pelo aumento de mães solo negras, que passaram de 5,4 milhões para 6,9 milhões em uma década.
Elas sustentam a família inteira com uma renda que não compete com a dos homens: mulheres chefes de família com filhos e sem cônjuge tiveram rendimento médio de R$ 2.386 no quarto trimestre de 2024, enquanto homens na mesma configuração receberam R$ 4.009 — uma diferença de 68%.
Mães solo ganham cerca de 40% menos do que pais em famílias biparentais, e muitas são empurradas para ocupações precárias pela simples condição de serem mães.
Por trás desses números está uma economia invisível que sustenta o Brasil e não aparece no PIB: o trabalho de cuidado. As mulheres no Brasil dedicam 21,6 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerados — quase o dobro das 11,8 horas dedicadas pelos homens.
Para as mulheres negras, essa carga é ainda mais pesada: elas chegam a dedicar 22,4 horas semanais ao trabalho de cuidado não remunerado. E quanto mais pobre, maior a sobrecarga: mulheres negras em domicílios de baixíssima renda chegam a 25,7 horas semanais nesse trabalho não pago — trabalho esse que, por não gerar renda, não entra na conta do IBGE mas deveria entrar em qualquer análise séria sobre desigualdade.
Cerca de 47,5 milhões de pessoas estão envolvidas em atividades de cuidado no país, sendo 78% mulheres e 70% mulheres negras. São elas que mantêm a sociedade funcionando — e são elas que o mercado de trabalho menos recompensa.
O resultado é uma desigualdade estrutural: as mulheres, principalmente negras, trabalham mais, ganham menos, têm menos acesso a crédito e, quando precisam recorrer a ele, pagam mais caro.
Portanto, não seria diferente que no recorte por gênero, as mulheres foram as que mais sentiram o impacto do endividamento em 2025, com a inadimplência entre elas subindo 1,9 ponto percentual em relação ao ano anterior.
O recorde de endividamento não é um número abstrato: tem rosto, tem gênero, tem raça — e, na maioria das vezes, tem filhos para criar sozinha.

Cresceu a renda. Cresceu a dívida
No entanto, o aumento no endividamento em abril foi disseminado entre todas as faixas de renda. Mas é claro que atinge, com mais intensidade, as famílias com renda de até três salários mínimos, pois 83,6% delas estão endividadas — e 38,2% estão inadimplentes.
Ou seja: quase quatro em cada dez famílias pobres não conseguem nem pagar o que já devem.
A explicação para esse aparente paradoxo — renda sobe, dívida também sobe — passa, visivelmente, pelos juros. O crédito está mais acessível, mas também mais caro.
O recorde é real. A celebração precisa esperar.
Crescer é melhor do que não crescer. O aumento da renda média é, sim, uma boa notícia — especialmente quando se considera que, em perspectiva histórica, entre os 10% mais vulneráveis da população, a renda cresceu 78,7% entre 2019 e 2025, enquanto os 10% mais ricos tiveram ganho de 11,9% no mesmo período. Isso importa.
Mas os dados de 2025 também mostram que os 10% mais ricos concentravam 40,3% de toda a massa de rendimentos domiciliares — uma fatia maior do que a obtida pelos 70% mais pobres juntos.
O relatório da Oxfam já havia alertado para esse modelo: enquanto a riqueza dos bilionários brasileiros cresceu 51% desde 2020, cerca de 129 milhões de brasileiros ficaram mais pobres no mesmo período.
Recorde de renda com recorde de dívida, crescimento maior no topo da pirâmide, abismo persistente entre brancos e negros, entre homens e mulheres, e peso desproporcional sobre as que mais trabalham e menos ganham: esse é o retrato do Brasil, um país que não superou suas desigualdades.
Mas, ao contrário, é um país que segue crescendo de costas para elas

















