O presidente da Academia Mineira de Letras, Vivaldi Moreira, assim definiu em discurso a importância de meu pai, que naquela data nos deixara e que hoje completaria 100 anos de nascimento: Fernando Megre Velloso, O Mago.
Médico de projeção nacional e líder da categoria que por três vezes o elegeu presidente da Associação Médica Brasileira, atuou de forma decisiva na vida brasileira, a partir de Minas, mas sem se circunscrever ao Estado.
Em Minas, exerceu os cargos mais relevantes concernentes à saúde pública, como secretário de Estado da Saúde e presidente do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais – IPSEMG, participando como figura de proa da articulação da Fundação Estadual de Psiquiatria –FEAP, da Fundação Hospitalar de Minas Gerais – FHEMIG e restaurou integralmente, como secretário da Saúde, a Fundação Ezequiel Dias – FUNED, de cujo prédio abandonado retirou seis toneladas de lixo para transformá-la em unidade exemplar de produção de vacinas e remédios que até hoje abastecem gratuitamente todo o Estado.
Foi o líder da campanha contra a última grande epidemia de meningite, propagada a partir da cidade mineira de Ipatinga, principiando ele por identificar como foco de expansão da doença o fato de que sendo uma cidade dormitório para os trabalhadores das indústrias próximas, os leitos eram ocupados, a cada 24 horas, por três pessoas diferentes, correspondentes a cada um dos turnos de repouso de 8 horas.
Declinou das sondagens feitas pelo regime militar para que ocupasse o Ministério da Saúde e prosseguiu a obra de seu pai, Galba Moss Velloso, passando depois o bastão a seu filho Sylvio Magalhães Velloso, todos eles psiquiatras, apoiados e encorajados pela figura ímpar de minha mãe, Maria do Carmo Magalhães Velloso.
Médico de famílias humildes e também daquelas altamente importantes, a sua condição profissional lhe dava um acesso livre de conselheiro junto a todas as facções políticas do Estado, com a perspicácia de psiquiatra sabedor de que “em Minas ninguém briga, mas em compensação ninguém faz as pazes.”
Com essa capacidade diagnóstica tornou-se um mago na solução de conflitos pessoais e coletivos.
Analisava Minas como se a deitasse suavemente no sofá imaginário de suas montanhas verdejantes.
E se tornava amigo de seus pacientes, que trazia para o convívio de nossa família, retirando-os da solidão tão temida para a convivência que os reinseria nos meios sociais mais cobiçados, em substituição à terapêutica distante e meramente profissional.
Com a mesma acuidade e sensibilidade, ajudou na política tanto o centro, como a esquerda e a direita, sendo emblemático o episódio em que interviu a favor de Luiz Dulci, então líder dos professores mineiros e mais tarde Secretário Geral da Presidência da República no Governo Lula.
Quando líder de sua categoria profissional Luiz Dulci iniciou uma greve de fome da qual não recuava, estando já à beira de um desenlace fatal.
O psiquiatra Fernando Megre Velloso, presidente da Associação Médica Brasileira, tomou o telefone e se comunicou, na condição de líder da classe médica, com o ministro Golbery do Couto e Silva, fazendo-lhe a seguinte e providencial sugestão:
– Soltem-no ministro. Tire-o da prisão.
– Como?! Por que?!
– Porque ele irá para casa. E ninguém consegue fazer greve de fome perto de sua mãe. Elas não deixam, insistem com um “coma um franguinho, meu filho”, em apelo que tem mais força do que Marx.
Golbery caiu na gargalhada. E soltou Dulci.
Anos mais tarde, em audiência com o ministro Dulci, contei-lhe o episódio e ele agradeceu com ênfase. A ordem que o soltara tinha sido expedida naquela mesma sala em que conversávamos e que tinha sido o gabinete do ministro Golbery.
Quando morreu Dona Júlia Kubitschek, mãe do presidente Juscelino, durante os tempos mais duros do governo Médici, no cortejo fúnebre havia um único veículo oficial desafiando a ordem vigente, o Dodge Dart com a placa oficial 018, transportando o secretário da Saúde, Fernando Megre Velloso.
Juscelino ficou de tal forma tocado que foi à nossa casa agradecer e passou uma tarde de domingo inteira batendo papo e rindo, à vontade como se nós fôssemos juscelinistas desde meninos – na verdade éramos da UDN, mas JK não era apenas do PSD, era de nós todos, o presidente mais generoso e importante que o Brasil já produziu.
De Fernando Velloso me disse Carlos Lacerda: “Seu pai é um dos homens mais inteligentes do Brasil.”
Seu cavalheirismo não era reservado aos ricos e aos poderosos, distinguia também os mais humildes, e o mesmo carro e o mesmo Secretário de Saúde repetiu a homenagem quando faleceu o mais pobre dos internos do Instituto Raul Soares, o Baeta, que fez com entusiasmo minha campanha vitoriosa para vereador em Belo Horizonte aos 21 anos de idade, o mais moço do Brasil.
Eu e meu pai o acompanhamos à sepultura que lhe comprara meu irmão, o grande psiquiatra Sylvio Magalhães Velloso, para que Baeta não fosse sepultado como indigente.
Fernando Velloso foi um pai exemplar e formava com minha mãe Maria do Carmo um casal lendário pela felicidade própria e pela fineza no trato com todos.
Eles tinham tempo para os outros, ao contrário da época tão impessoal que agora vivemos, em relacionamentos frios e distanciados pelos meios eletrônicos.
Neste centenário de meu pai, em que devo celebrar também o ambiente que o cercava e à minha mãe, indispensável dizer que com sua generosidade e elegante modéstia fizeram com que por algum tempo revivesse em Minas o conceito que define Camelot: “Houve uma vez lugar para um esplêndido momento, que se chamou Camelot”.



















